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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença do século

Imagens de  Francesco Romoli

Ele, que sempre repetia tudo que via e ouvia, sem nunca buscar saber a verdade, por preguiça ou desleixo, acabou um dia seguindo uma multidão com panelas e palavras de ordem. Ficou feliz, quem não ficaria, parecia final de copa do mundo e final de copa do mundo é uma festa só, não é? O problema é que ultimamente não andamos muito bem das pernas em copas do mundo. Não foi festa.

Não satisfeito, engrossou o caldo em um espetáculo de circo armado. Gritou, junto com outros, hinos de despedida. Ficou, porém, com vergonha de perguntar quem era tão querida assim para todos se despedirem dela e continuou.

Depois, ainda sob os efeitos da doença da repetição e com os olhos vidrados à TV, falava baixinho um mantra mal feito sobre alguma coisa como não falar em crise e se mexer. Foi quando acordou e revolveu se concentrar no trabalho e estudos, “nada de crise, nada de crise”.

Logo lembrou-se de que não teria mais aulas de espanhol, de que tanto precisava, mesmo morando em um continente em que todos falam essa língua (exceção do Brasil, claro) e esta sendo a segunda mais falada no mundo. E de que no país do futebol, das recém olimpíadas e tão necessitado de movimento, a educação física iria ser reserva. Mais ficou feliz por não mais ter filosofia e sociologia, afinal, pensar para quê?, repetir já estaria muito bom.

Foi ainda feliz ao trabalho, afinal de contas era concursado. Daqui não me tiram, falava sorrindo.

Foi o primeiro a ser demitido. Mas por que, se perguntava atônito, como?

Ainda pensaram em explicar, mas ele não entenderia.

Voltou pensando em usar o FGTS para comprar a casa própria...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Santo de casa

Dancer Adjusting Her Shoe - Edgar Degas

Olhando-se no espelho, ela foi aos poucos terminando a lenta e exaustiva maquiagem para sua última apresentação, lembrando-se dos anos áureos do auge da carreira. Lembrando-se de toda a vida de dedicação à arte.
Pôs o collant, a sapatilha e se encaminhou para o palco. Já havia ganho tudo o que se podia imaginar, prêmios, dinheiro, amigos e fama. 
Desde criança sonhava em ser artista, queria viver de seu talento, fazer fortuna, ser famosa. Depois que cresceu foi que percebeu o que realmente queria. O que realmente buscava. O que realmente faltava.
Ali estava ela, diante das luzes, na ponta, com o sorriso aberto, mas com a felicidade guardada a sete chaves. Não chegou a se apresentar. Sentou-se, olhou lentamente a plateia do teatro, como buscando alguém e, mais uma vez, sangrou por dentro. Não mais aguentando, chorou copiosamente. Todos no teatro aplaudiram, pensando ser a emoção da despedida.
Ninguém ali nunca soube o porquê daquele choro e o que ela sempre desejou por toda a vida. Pensavam que já tinha conquistado tudo. Que aquela vida era perfeita. Invejavam toda aquela fortuna aparente.
Morreu cercada de medalhas, louros, estranhos e nenhum reconhecimento das pessoas que realmente importavam. Das pessoas de que tanto buscou na plateia por toda a vida. Morreu sem os aplausos daqueles que nunca estavam onde deveriam.
Partiu ainda rica, mas sem nenhuma fortuna.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Fogo brando

Arte de Valentina Photos

Premiado no Prêmio Maximiano Campos de Literatura – Categoria: melhor miniconto.

Foi exatamente, coincidência ou não, quando as trevas me cegaram que pude enxergá-la. Observava-me com olhos de fogo brando, em silêncio de incêndio recém-acabado. Não pronunciou-me nenhuma faísca, ou fogo de festa em noite fria, apenas queimava-me com olhares de soslaio. Deixei-me ser marcado.
Aos poucos, todo o meu corpo ia sendo consumido, ou o que havia restado dele depois das trevas impiedosas, meu sangue borbulhava novamente, assim como quando havia caído. Não era uma ressurreição ou uma volta aos céus, eu continuava a descer, entretanto, dessa vez era diferente.
Senti medo, é certo, quem não sentiria? Era fogo nunca visto antes, era incêndio em mata seca.
Quando cheguei ao último degrau, acompanhado do medo e da dúvida, a vi recuando, a chama sem trégua, o fogo sem medo, o incêndio sem precedentes. Talvez eu fosse água.

* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje.
Ainda não leu o livro (Não se pode mais amar em paz hoje)? Compre já pela loja online ou pelo facebook.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O real sentido da vida

Foto de Bruno Mota Pinheiro.


Estava ontem a pensar sobre o real sentido da vida e o desespero se abateu sobre minhas asas. Tanto céu, tantas nuvens, tanto vento e eu aqui perdido, não no espaço, mas nos pensamentos. Sei muito bem onde estou, por isso essa minha agonia.
Todos os dias sempre buscava as migalhas do 43, todos os dias. O céu para mim estava sob o céu, abaixo daquela janela. Ela sabia que eu iria naque­le horário e observava-me com timidez, com vergo­nha, com inveja. Sim, assim como eu, ela também buscava um sentido, buscava encontrar-se em pen­samentos, pensava que a vida era um sonho.
A vida talvez seja um sonho, quem sabe? O problema é que ela tentou despertar. Do alto do prédio, observou o horizonte, como quem diz oi ou adeus, bateu asas, mas não voou.

Hoje, sinto uma dor imensurável, não sei se pela falta das migalhas de cada dia, ou por ter asas e não voar.


* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje, e inspirado na foto da postagem.
Ainda não leu o livro (Não se pode mais amar em paz hoje)? Compre já pela loja online.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

A vida de ninguém

Foto de Egor Shapovalov

A vida muda na mesma velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso; trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava... Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser político no Brasil

Bola de gude - Ivan Cruz


Joãozinho desde pequeno tinha um sonho grande. Pensava alto. Queria ser político. Um dia, ainda criança, saiu de casa com toda aquela alegria que os adultos invejam e foi jogar bila (bola de gude) com seus amigos. A brincadeira consistia em acertar a bila do adversário com a sua. De cara, Joãozinho perdeu. Diferentemente dos outros, que quando perdiam, aceitavam, e tentavam melhorar para vencer em uma próxima vez, ele tinha um sonho, um grande sonho! Não demorou e foi logo falando:
– Essa não valeu! Vamos de novo. - com ar de superioridade.
O amigo revoltado com aquilo contestou:
– Mas por que não valeu?
– Porque sim.
As outras crianças, vendo aquilo, também ficaram indignadas e tentaram também opinar contra aquela arbitrariedade, mas antes de abrirem a boca foram logo interpeladas por Zezinho que foi avisando:
– Aqui na rua das bilas também fica proibido opinar.
Mesmo sem ter mais graça nenhuma, Joãozinho e Zezinho ficaram brincando sozinhos com as bilas dos demais coleguinhas. 
– Esses dois têm futuro! - gritou alguém ao longe.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na verdade nem sei se merece um título

Democrart - René Magritte


Deu-se início a votação. A criança, que a tudo assistia na tevê, junto com os pais, já não entendia o que acontecia – mas não era votação? Resolveu perguntar.
– Que festa é essa, papai?
– Não é festa, filho, é uma votação muito importante para nosso futuro.
Alguém joga serpentina no ar. Outros gritam. Alguns riem, gargalham diante de um pronunciamento.
A criança, sem entender como aquilo não era uma festa, acabou saindo da sala resmungando – como aquilo pode ser uma coisa séria? ­– Voltou logo em seguida, curiosa para ver como estava aquela festa, digo aquela votação séria.
Na volta ela assiste mais um pouco, e fica mais uma vez confusa - pessoas de verde e amarelo? Depois de ver muita gente gritando, vaiando, sem respeitar a voz do outro, interpela o pai.
– Mas a votação é de jogo do Brasil, papai?
– Não filho, a votação é sobre nosso futuro.
Mais uma vez o filho sai da sala e ao voltar, cansado por não ter a atenção da família, que não saía da frente da tevê, vê algumas pessoas falando – é para meu filho, minha esposa, é para o papagaio... – Uma festa generalizada e um placar gigante na tela.
– Pai,  foi gol do brasil?
O pai, sem saber o que responder, solta baixinho:
– Sim, filho, mas foi gol contra.
A criança, dando pulos de contente por acertar que se tratava de uma festa do time do Brasil, ainda teve tempo de perguntar ao pai quem era aquele sentado ao centro da mesa.
– Ele é o técnico do Brasil, papai?

O pai não conseguiu responder por causa do choro repentino.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O mundo perfeito

Dream world - Jacek Yerka

Ela, que sempre dizia que tudo era perfeito, brigava de veras com quem discordava daquela opinião. – "Você não vê, o mundo é lindo, tudo é perfeito, as pessoas, minha nossa, como são boas, e olha a política...!” - Berrava à amiga inconsolada. O importante, segundo ela, era não ver o que acontecia para não pensar negativamente. “Se você não vê”, dizia ela, “não existe”. Dessa forma, para sustentar suas ideologias, adotou novos hábitos.
Começou por não mais escutar o rádio de que tanto amava. Não demorou muito e a TV da casa nem mais era ligada à tomada. Aos poucos também foi evitando sair de casa e, por fim, parou de olhar a rua pela janela.

A amiga, preocupada, ligou para ela afim de tentar solucionar aqueles problemas. Como pode!? Conversa vai, conversa vem, ela finalmente assume que o mundo realmente não é perfeito, que sim, tem algo de muito errado nisso tudo. Resolveu pintar o quarto de verde-limão. “ ­Na cor que estava era inadmissível!” - falou com ar de determinada.

terça-feira, 29 de março de 2016

A beleza vendida em garrafas

O Nascimento de Vênus (1485), Sandro Botticelli


Ela, fascinada pelas modas vendidas em garrafas, nunca ousou sair sequer para a padaria sem conferir a última. Seguia à risca. Era uma felicidade sair de casa e parecer estar dentro de uma sala de espelhos, tudo igual, todos iguais. Todo mundo vestia os mesmos modelos de roupa e usavam os mesmos óculos e celulares. Era uma felicidade só. Sentia-se incluída em algum lugar que nem mesmo ela sabia onde era.
O problema maior veio quando tudo subiu à cabeça. Literalmente. Viu ela, em uma propaganda de xampu na TV, que bela era a mulher que tinha os cabelos lisos. Correu ao salão na mesma hora para não ficar ultrapassada, feia.
Nem sequer deu tempo de chegar em casa com o cabelo novo. Pluft! Escutou no rádio uma outra propaganda – “Não fique para trás, seja bela, use cabelo encaracolado, liberte-se”! Deu meia volta, e em muitas horas, estava bela novamente.
Enquanto caminhava feliz para casa, leu no outdoor que o vermelho estava de moda. “Seja ruiva”! Resolveu voltar ao salão, mas no caminho foi bombardeada por outras tantas propagandas. “Chanel voltou com tudo”! “Anos 20 na cabeça”! “Cultive seu cabelo”! “Loiro pra todo lado”! Enlouqueceu antes de chegar.
Hoje se contenta em usar o branquinho básico da camisa de força.


sexta-feira, 18 de março de 2016

A culpa é dos outros

O filho do homem - Magritte
Era uma vez, em um país fictício muito distante, a história inventada do homem imaginário que resolveu protestar contra a corrupção. Saiu no seu carro de mentira em direção ao protesto e no caminho lembrou-se de abastecer. Ainda com o dinheiro do voto que havia vendido, encheu o tanque.
Chegando lá, viu uma multidão, ficou feliz que finalmente o povo havia acordado para os abusos de alguns - ainda gritou de dentro do carro em coro com muitos – "punição aos corruptos!". E mais uma vez lembrou-se que precisava estacionar. Como não encontrava uma vaga perto do protesto, estacionou ali mesmo, na vaga que estava livre.  - Vaga para deficiente/idoso -.
Gritou em coro. Fez selfie. Comeu e bebeu.
Ao voltar, deparou-se com a polícia rebocando seu carro. Ficou indignado pela situação e foi logo dizendo que todos eram um bando de ladrões que apenas queriam ganhar dinheiro por meio de multas. – "Ódio desses corruptos!" - Gritou antes de ir preso por tentativa de suborno para liberar o carro.
No dia seguinte, foi solto e voltou para casa de ônibus com sua carteirinha de estudante falsa. Indignado, ainda escreveu na rede social antes de assistir a série favorita na TV a cabo pirata - "A culpa é dos 'outros'".   

sexta-feira, 11 de março de 2016

A felicidade mora logo ali

Rose meditative - Salvador Dalí


Ele, que de longe mais parecia um artista de cinema, totalmente dentro daquele quadrado do padrão de beleza, passeava no seu carro, que há pouco estampara a revista conceito de automobilismo, pela cidade. Vestia o mais fino terno que encontrou na loja de nome impronunciável e exalava o mais suave perfume da boutique que nem sequer sabia que existia. Ao lado, a mais bela jovem que jamais havia visto na vida. Tudo que podia comprar, comprou.
Uma luminária de cristal que nunca acendia, talheres de ouro que não usava, cachorros que nunca cuidava, animais silvestres por suas cores bonitas.
Um dia, depois de mais um passeio como o de sempre, percebeu que algo estava faltando. Procurou por todas as partes; dentro da piscina em forma de diamante, embaixo dos muitos carros, dentro de todas as casas que tinha. Não encontrou.
Descobriu depois, olhando para o jardim, que o jardineiro havia encontrado aquilo que tanto tirava o seu sono, e nem sequer havia gasto um só centavo. Era lindo de se ver aquele homem exalando tanta felicidade com o perfume de uma rosa. Correu de encontro à mesma rosa e tentou por várias vezes sentir o mesmo. Em vão. Com raiva, despedaçou toda a flor e gritou impropérios ao vento.
­– Para ser feliz - disse o jardineiro - não precisamos de muito. Estar disposto a isso já é um grande começo.

O silêncio veio em seguida. 


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terça-feira, 1 de março de 2016

A ausência fez-se presente

Marcel Caram



Outro dia, uma cena bastante curiosa, apesar de comum, infelizmente, chamou-me a atenção. A ausência havia saído para comer. "O que há de errado, hora mais! Todos têm esse direito". O problema é que aquele silêncio estava-me cortando a espinha.
Haviam três à mesa, mas somente a ausência fazia-se presente. Era uma convidada de honra, uma amiga do peito, uma constante durante todo o encontro. Era ela, inclusive, quem falava ao garçom o que os outros dois queriam comer, beber e quando poderiam se levantar para ir ao banheiro.
Por todo o tempo que permaneceram lá, em nenhum momento se olharam nos olhos, trocaram palavras, ou riram de alguma bobagem. Por todo o tempo comeram e não saborearam, beberam e não mataram a sede, estavam juntos e ao mesmo tempo distantes.
Quando saíram do restaurante e guardaram seus respectivos celulares no bolso, pareciam Adão e Eva quando da vergonha de estarem nus. Eram dois estranhos sem ter o que dizer um para o outro. Preferiram o silêncio de um beijo seco.

A ausência foi a única quem percebeu que a pizza estava estragada.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A fantástica história inventada do rapaz que queria mudar de vida no ‘ano novo’

Magritte. The Therapist

Era uma vez, em uma cidade fantasiosa, a fantástica história inventada do rapaz que queria mudar de vida. De tão absurda, essa história sequer iria ao papel, mas dadas as circunstâncias, resolvi assim fazer.
Esse rapaz, de nome fácil, dizia sempre que a vida estava difícil demais da conta, que daquele jeito não poderia mais continuar.
– Vou mudar de vida! Gritava para quem quisesse ouvir.
Não estava feliz, isso era certo. Dizia ele que nada estava como deveria, que algo tinha que mudar, que seria um novo homem.
– Serei um novo homem. Gritava para quem quisesse ouvir.
Nada dava certo no trabalho, já estava acima do peso, e o relacionamento, ah! Já estava ladeira abaixo. Decidiu cambiar de vida.
Esperou todo o ano passar, dado que só se pode mudar de vida no início do ano. Dia 1 de janeiro, porém, viu que a única coisa que havia mudado era a cor do calendário. Repetiu todo o discurso.

– Em janeiro de 2017 tudo vai dar certo. Sussurrou ao vento.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Desastre somos nós




Uma criança que assistia a tudo pela tevê ficava cada vez mais confusa com toda aquela situação, passava a mão na cabeça, colocava a mão no queixo, olhava pela janela, mas nada disso a fez responder àquela pergunta tão difícil a alguém de tão pouca idade. Teve de recorrer à mãe que passava pela sala naquele momento.

- Mãe, o que é crime?

A mãe do garoto, assustada com aquela pergunta repentina e sem saber explicar corretamente o significado da palavra, recorreu ao dicionário, discretamente,  que estava na estante e respondeu com fluência para o garoto.

-Violação das regras que a sociedade considera indispensáveis à sua existência.

- Então matar é crime, certo, mãe? Mas é claro meu filho, retrucou a mãe imediatamente.

E o filho continuou: então por que dizem na tevê que o rompimento das barragens, que matou pessoas, animais, plantas e a esperança de muitos, por negligência, dinheiro e ganância foi um desastre e não um crime? Será que eles não têm dicionário como a senhora?

A mãe do garoto toda envergonhada pela situação tentou ainda mudar de assunto, mas foi a criança que pôs um ponto final na conversa.

- Ah, entendi mãe, entendi. Foi um desastre sim, mas um desastre humano! 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O vazio está em todo lugar

Arte de  Mark Samsonovich


Era uma vez, em lugar muito distante, de uma cidade inventada, quase impossível de existir, um rapaz chamado Vazio, que de tão absurdo, também devia ser fantasia.
Era uma pessoa comum, tinha amigos, cachorro... Porém, parecia ser diferente dos demais. Ele sofria de um mal raro, que por muito tempo pensou-se ser incurável e contagioso.
As pessoas, no começo, olhavam de uma forma diferente para ele, com um olhar de estranhamento e reprovação, o que  o deixava bastante constrangido e envergonhado. O tempo, entretanto, fez com que ele se importasse cada vez menos com esses olhares. Até que um dia tudo pareceu normal.  
Vazio jurava que lixo era semente e tentou por toda uma vida plantar, de onde estivesse, os vegetais mais raros do mundo. Não era difícil flagrá-lo tentando plantar uma latinha de refrigerante da janela do ônibus ou uma embalagem de bombom na saída da festa, na rua.
Vazio, que fez jus ao nome, morreu sentado à calçada esperando uma de suas mudas brotar, crente de que elas não nasciam porque as pessoas não regavam direito.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Maria ia com as outras

Mulher Em Frente ao Espelho - Pablo Picasso

Um dia, Maria, personagem fictícia que vivia na cidade inventada, decidiu que nunca mais iria com as outras, que a partir de agora ela faria somente o que achasse ser o melhor para ela.
Em uma tarde fria do mês de abril, porém, enquanto passeava com seu cachorro, Maria foi interpelada por uma de suas amigas, que perguntou quando ela iria ‘arrumar’ um namorado. A vizinha, que escutava a conversa, foi logo se intrometendo, dizendo que uma moça bonita como ela deveria procurar um namorado logo, e tal e coisa. Outra mulher que passava no local, adivinha? Falou a mesma coisa. Sabe o que Maria fez? Exato.
No dia seguinte, enquanto Maria e seu novo namorado passeavam com o cachorro, foram abordados no mesmo lugar pelas mesmas pessoas, só que agora, elas vendo que Maria havia ‘conseguido’ um namorado, mudaram o discurso, e quase que concomitantemente as mesmas três foram logo perguntando quando o casal iria oficializar a relação, que deveriam se casar logo e tal e coisa. Maria se sentiu tão inferior, por não ser casada ainda, que foi logo tratar do assunto. Marcaram para dali a um mês.
Passada a cerimônia, foram todos para a festa, adivinha quem estava também aproveitando os comes e bebes? E trataram logo de convencer Maria de que um casamento sem filhos não era um casamento e tal e coisa. Não preciso nem falar o que Maria fez, não é?
Após um tempo, enquanto passeava com os dois filhos e os três cachorros, Maria foi abordada por mais uma amiga que foi logo perguntando como ela aguentava estar casada a tanto tempo, que bom mesmo era estar livre, sem ‘correntes’ e tal e coisa.
Maria se separou, voltou a ir com as outras e percebeu que as amigas não haviam pago suas contas.

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terça-feira, 21 de julho de 2015

O maldito ciclo do coração


Havia decidido passear pela orla, em uma última tentativa de esquecer mais uma frustração de um relacionamento fracassado. Nunca mais me apaixono, nunca mais, gritava em pensamentos. Não sei se houve um culpado, mas me agarrei na prerrogativa de que aquilo era um ciclo e como tal havia se renovado.
Sentei no primeiro banco que vi, comprei um sorvete e comecei apreciar o mar, as pessoas; a escutar as conversas, a me distrair. Até que a paz que havia levado horas para conseguir foi carregada pelo vento.
Um homem, a quem julguei louco, a princípio, estava agitado e parecia buscar alguém na multidão.
Senti-me incomodado no começo, mas depois, foi só inveja, admito. E, em pouco tempo, aquela inveja deu lugar à inspiração.
Coloquei na cabeça que se ele conseguiu daquela forma, tão facilmente, eu também poderia. Larguei o sorvete e a promessa e saí correndo para o outro lado da rua para fazer o mesmo que ele. Fiz. Seria o fim da minha tristeza, pensei.
Para a primeira que passou, ele se pôs à frente e perguntou: “Você quer um amor verdadeiro para a vida inteira?”. Ela, emocionada, aceitou e os dois saíram de mãos dadas.
 Só depois que descobri que ali eram atores em pleno exercício da profissão. Já era tarde. O ciclo continuou da mesma forma, porém, agora, eu estava sem o sorvete e com uma nova promessa na cabeça.  

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Do amor (moderno)

Les Amants (Gli Amanti)  René Magritte

Depois de muitos anos sem se ver, duas amigas se esbarram na rua, enquanto faziam compras, e aquele cheirinho de boas conversas volta ao ar.
As duas tentam, ali, rapidamente, repor os anos de ausência e distância. Com aquele clima nostálgico, perguntam sobre estudos, trabalhos, férias e viagens. Não se sabe se por aparência, ou coincidência, mas tudo estava as mil maravilhas para ambas.  
Até que o bom e velho assunto surge.
O amor, ou o que se pensa ser ele, está cada vez mais em evidência, principalmente por conta das redes sociais. Amar hoje é fazer uma selfie com o(a) amado(a) e postar na rede social favorita esperando a aprovação de uma centena de desconhecidos. Amar deixou de ser, para muitos, um sentimento e virou uma vitrine, ou seria um status?

Ao ser indagada pela amiga sobre a vida amorosa, responde com a alegria jovial de quem passou no vestibular; “meu namoro está ótimo, bem no início, é certo, mas já temos 400 curtidas e 300 comentários, e o seu?”. Ela ainda esboçou uma resposta, mas preferiu ser atropelada pelo ônibus que passava. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Receita para o amor eterno

Mulher chorando - Pablo Picasso


Certa vez, enquanto esperava para fazer sua escova, leu na revista semanal do salão de beleza que para o amor perdurar, teria que fazer o que as mulheres estampadas no folhetim faziam e seguir três passos cruciais.
Receita para o amor da vida inteira, dizia a manchete.
É infalível, relatava uma das famosas da revista.
Ela, já animada com a notícia, abriu um sorriso sem precedentes. Enquanto chegava sua vez de ser atendida, decorou os passos da receita e prometeu colocá-la em prática ao chegar em casa.
Ao ser atendida, porém, mais uma vez buscou uma outra revista como passatempo, desta vez a mensal. E, por coincidência, ou não, esta trazia como destaque uma receita para o amor não morrer.
Esqueça tudo o que você já leu sobre o assunto, dizia a reportagem, nós temos a receita para seu amor durar para sempre.
Ela, mais uma vez se animou e leu ferozmente tudo o que ali estava escrito.
Eufórica, com a receita em mente, saiu do salão já planejando como colocaria tudo em prática. Colocou.
Dois dias depois o namoro havia acabado. Ela inconformada e triste com a separação e ainda mais com a receita falha, ligou para o SAC da revista afim de fazer uma reclamação. Rapidamente, porém, seu semblante mudou completamente. E ela quase deu pulinhos de felicidade.
A revista desta semana trará uma receita facílima de como recuperar o amor perdido, falou a atendente do outro lado da linha.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Bodas de papel

Galatea of the Spheres - Salvador Dalí

Reserva para dois. Bodas de papel – falou ao telefone.
Os dois chegaram pontualmente no horário combinado. Bem arrumados e elegantes. Não havia lugar melhor para comemorar, pensava ela, afinal, tivera sido em um restaurante (um bar, meia boca, na verdade) que haviam se conhecido.
Até que enfim vamos ficar a sós, falou baixinho para o amado.
O garçom, gentilmente, acomodou os dois e entregou os menus. Escolheram sem pressa e aguardaram os pedidos enquanto colocavam a conversa em dia.
Até que enfim vamos ficar a sós, repetiu baixinho, com mais alegria ainda, para o amado.
Ela tentou colocar a conversa em dia e começou falando do trabalho, das amigas, daquele relacionamento e tentou até se cansar, mas nenhuma resposta, ao menos dissílaba, saiu da boca do seu companheiro, que incansavelmente procurava por algo. Nas paredes, nas colunas, no menu.

Foi quando ele encontrou o que tanto buscava que ela convidou o silêncio para sentar em seu lugar e saiu. Wi-fi grátis. Nem sequer deu tempo de ele fazer o check in.
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