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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A ilusão do ano “novo”

Imagem de frankie's.


Quantas vezes já não ouvimos a famigerada frase de que ano quem vem será diferente, de que em janeiro começo a dieta, a reestruturação financeira, a atividade física? Quantas vezes já não falamos que no ano que vem tudo mudará, porque será uma nova vida? Muitas vezes. Sabe por quê?Apegamo-nos facilmente à esperança de algo que não está palpável. De algo que está sempre por perto e concomitantemente distante. O futuro.
Se no ano seguinte tudo pode ser maravilhosamente diferente em nossas vidas e tudo isso depende de nossa atitude e força de vontade, por que não começar hoje, agora? Por que esperar mais tantos dias para isso? Pelo simples motivo de que agora eu preciso de coragem. Coragem não para começar realmente, mas para quebrar uma regra que foi imposta, de que somente pode-se começar alguma mudança no início de algum ciclo; semana, mês ou ano. Esperar por uma mudança é, talvez, antecipar o próprio fim.
A vida não mudará se continuarmos com o mesmo velho pensamento de sempre. A vida não mudará se continuarmos na esperança de mudança radical e repentina por uma mágica ou milagre de uma passagem simbólica de tempo. O ano “novo” não terá nada de novo, será apenas mais um dia que começa, assim como todos aqueles que vivemos apenas esperando. O ano só será “diferente” se assim o quisermos, se continuarmos esperando, será mais um loop, a mesma vida, as mesmas escolhas, os mesmos sonhos, os mesmos erros, a mesma esperança. A diferença será apenas a idade. Em algum dado momento sequer conseguiremos manter essa rotina.

           A mudança verdadeira, seja ela qual for, vem de dentro e não depende de nenhum calendário.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A vida é uma música sem fim

Everett Collection



Quando ouvimos a música pela primeira vez, o estranhamento sobe à superfície e a pergunta clássica ressoa pelas paredes, por que me tiraram o silêncio aconchegante? Tudo é novo, tudo é estranho, mas aos poucos nos acostumamos com o diferente, e até que, às vezes, gostamos do ritmo, das vozes, do balanço.
Não demora muito, e o pé direito começa a se chocar contra o solo em ritmo contínuo, tentamos de todas as formas acompanhar aquele som. Ficamos de pé, para tentar aproveitar da melhor forma possível. Muitas vezes caímos, é certo. A queda, aprendemos, muitas muitas vezes e somente alguns, que faz parte. A queda, ainda sim, é um passo.
Tentamos de um jeito, de outro e aos poucos podemos dizer que dançamos ao ritmo da música que toca. Ou pelo menos tentamos, o importante, em muitos casos, é continuar tentando, um dia acertamos o ritmo e pronto, a dança será plena.
Não demora muito e percebemos que dançar sozinho é menos feliz que acompanhado. Começamos a compartilhar abraços e percebemos que mais difícil que encontrar o par perfeito para a dança é acompanhar o ritmo do outro. Muitos conseguem, muitos desistem, muitos não cansam em procurar.
Os que estão de fora (não são todos) veem defeitos nos passos de quem dança, os que estão dançando (não são todos) veem defeitos naqueles que estão sentados, os que não escutam a música (sim, são todos) não conseguem ver muita coisa, além do próprio reflexo.
Mesmo quando não conseguimos ficar de pé, a música continua. Continua viva, no ritmo certo, e dançamos com os olhos, com a boca, com a mente.
Os que não escutam a música e não sentem o ritmo, não admiram a dança, não aproveitam o abraço, não abrem aquele sorriso com a síncope, sequer conseguem ficar de pé por muito tempo.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A obrigação da felicidade

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, 1503-1507.

Iria começar esse texto dissertando sobre o mundo em que vivemos, seus defeitos e pensamentos cada vez mais ultrapassados. Poderia começar falando também sobre as dificuldades de muitos para muitas coisas, sejam básicas ou não. Fazer isso, porém, seria apenas uma redundância, dado que todos vivemos no mesmo lugar. Não é verdade?
Engraçado é que, mesmo todos vivendo, vendo e sentido os turbilhões de pormenores de cada dia, os sorrisos estampados nas fotos dizem algo diferente. “O mundo está cada vez melhor”! Talvez até esteja, isso porque a felicidade nada mais é do que um mero ponto de vista. Tudo depende de onde você olha o mundo, de que lado da cerca está.
E hoje, também, mais do que nunca, vivemos com a mesma sensação de tempos passados, talvez. A sensação de que algo está faltando. A sensação de que estamos sempre em busca do desconhecido. Talvez esse seja o motivo de continuarmos. Talvez. Mas uma coisa que é notável e afirmo sem medo de errar é que enquanto buscamos esse algo, impomos aos outros uma coisa que muitas vezes nos falta. A felicidade. Aquela mesma que não passa de um ponto de vista.
A maior preocupação da humanidade hoje não é ser feliz, e isso já engloba tudo o que você sonha para sua vida ser plena, mas sim tentar demostrar que a sua vida é feliz. Em outras palavras, moldar-se às convenções de uma sociedade falida e preconceituosa. Claro que em suas devidas proporções e sem generalizações, graças a algo que não sei explicar, todos somos distintos, mesmo sendo iguais.
Retrato do Dr. Gachet, Vincent Van Gogh- 1890
Tentamos impor ao outro que nosso jardim é mais verde, que nosso café é mais quente, que a Gioconda está sorrindo, que até o nosso misto quente é de outro mundo, tudo para explicar nossa felicidade da foto de cada dia, porque do contrário, ah do contrário! Podemos ser taxados de estranhos, depressivos, bucólicos, diferentes dos que estão na sociedade (e isso pode ser ótimo!). Diferentes daqueles que continuam felizes, apesar de toda a tristeza que varrem para debaixo do tapete.
Muitos prestam essa felicidade numa glorificação de um matrimônio que já dura 30 anos e que é sólido como uma rocha, exemplo de longevidade, mas que dentro de casa, não passa de gelatina vencida e não é exemplo nenhum de amorosidade, companheirismo. Tudo isso por causa de uma convenção. Uma dívida que nunca entendi. Felicidade é ter claro que o fim de um relacionamento não significa, necessariamente, uma tristeza, pode ser o início da felicidade. Não fomos feitos para nos tornarmos estátuas. Adornos.
Felicidade é ter claro que ninguém precisa saber de cada passo seu, porque as pernas são suas e o tropeço já vai ser uma vitória.
Felicidade é saber que recomeçar é apenas continuar uma jornada mais experiente.
Felicidade, meus caros, é saber que a tristeza é algo naturalmente normal.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Viver esperando é agonizar no presente

Michael Cheval - Time to love


Não adiantam cálculos, anotações passadas, experiências vividas, amar é sempre andar no escuro. Não importa a idade ou quantos relacionamento já viveu. Não existe vacina para a desilusão, tampouco vitaminas para a felicidade. Cada amor é único, e isso não é poesia, é química. A química do amor.
Tudo começa com as palpitações estranhas, as mãos suadas, a voz ausente. Tudo quase sempre começa da mesma forma. Com os mesmos pensamentos distintos, que dessa vez vai ser diferente. E é! Sempre é.
Coincidência à parte, tudo, também, quase sempre acaba da mesma forma.
Triste, porém, são os que, ao terminar um relacionamento, já disparam – “foram anos perdidos”! Até podem ter sido, mas não é porque chegou ao fim que tudo foi em vão. Não é simplesmente porque terminou, que o passado não mais existe. O importante foi o que se viveu, conviveu, amou e, principalmente, o que se aprendeu. Tudo é aprendizado. Aprendizado para a vida, para a alma, porque amar, como já falei, é andar no escuro. Podemos cair no mesmo buraco infinitas vezes.

Felizes não são os que ficam juntos para sempre. Felizes são aqueles que vivem sem se preocupar com isso. Vivem o hoje, o agora. Se você passa toda uma vida preocupado com uma coisa que sequer existe, esquece de viver.

segunda-feira, 7 de março de 2016

As faces do amor

Passion - Claudio Souza Pinto

Se perguntarem se o amor é bom ou ruim tudo vai parecer bastante simples e até bobo, você dirá: “– ora bolas, o amor é bom. Todo amor é bom. Eu inclusive amo e estou muito feliz”. Mas será que todo mundo compartilha dessa opinião?
Antes de tentar responder se o amor (aquele de pele, de alma – não falo paixão porque esta é fumaça fraca que o vento leva) é bom ou ruim, caminharei por palavras menos rasas, por caminhos mais sombrios.
Imagine uma estrada escura, deserta, silenciosa. Imagine que você tem outra opção e, mesmo assim, escolhe essa estrada para seguir sua caminhada. Você não sabe o que vai encontrar ou se vai encontrar algo. O que vai determinar se será uma viagem boa ou ruim será a forma como se caminhará pela estrada. Você pode decidir caminhar com esmero, com um medo velado a cada passo, ou fechar os olhos em meio ao escuro e confiar no desconhecido, sem medo de tropeçar em uma pedra que seja.
Nunca sabemos quando uma estrada é boa ou ruim ou onde ela nos levará. Nunca sabemos quem talvez colocou aquela pedra que nos fez cair ou como encontramos aquela pessoa que nos ajudou a levantar. Não existe vida planejada (caminhada), isso é balela. Existe, sim, expectativa, quimera. Da mesma forma, não existe amor dos sonhos, perfeito, existe amor real, com pedras e flores. Não existe segurança em meio ao escuro. Existe confiança, caminhada, medo, frustrações e realizações. Saber todas as possibilidades torna o caminhar sempre menos escuro, mais seguro, mais leve.

Uma coisa é certa, nunca se chega a lugar nenhum parado.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não há nada mais democrático do que a dança

Obra de Fernando Botero.

Não importa o seu peso, a sua altura, a sua idade. Não importa se você é tímido ou de Marte. Não importa a classe social a que pertence ou sua origem étnica. Não importa se o seu time é o A ou o B. Dentro de um abraço todos somos iguais, capazes e felizes. Dentro de um abraço o importante é a música, o sentimento, o contato, o riso, o aprendizado.
Independente do tempo que você esteja envolvido com a dança, se um dia ou muitos anos, certamente já percebeu isso. E parece óbvio, lendo agora, mas, algumas vezes, esse sentimento passa despercebido. Muitas pessoas levam escondido na gaveta esse projeto de vida, dançar, por esse simples detalhe ou pensamento - de que não conseguem por determinado motivo.
Não posso garantir nada, não prevejo o futuro, não direi aqui que todos terão a mesma percepção ao provar os primeiros passos. Garanto, porém, que só saberão o quão bom é um abraço musical, a partilha do riso quando do acerto ou do erro de um passe, a gratidão mútua ao final de cada música, provando, tentando, deixando a vergonha e o preconceito dentro da mesma gaveta que ficam os projetos da vida inteira.
Tenta qualquer dia desses.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O retrato quase perfeito da vida cotidiana

Obra Batucada, de Carybé.
Ah, o carnaval! Quantos gritaram aos sete ventos e em muitas ladeiras que iriam aproveitar ao máximo aqueles dias antes de voltar à vida “normal”? Quantos falaram baixinho que não poderiam perder tempo? Quantos não se deram conta de que com ou sem carnaval continuamos mortais?
O carnaval, como tantos outros dias festivos no nosso calendário, é o retrato quase perfeito da nossa vida cotidiana. Vivemos esses dias sabendo a data exata que acabará, por isso, quase sempre são vividos intensamente. São nesses dias que temos mais coragem de ir além, porque perder tempo não é opção.
São nesses dias que a vida é mais alegre, porque a tristeza não tem vez. São nesses dias que acordamos pensando em fazer algo diferente do dia anterior, usar uma outra fantasia, ser o que sonhou, porque tudo dura pouco, tudo é efêmero.
São nesses dias que nos esquecemos de que todos os outros dias da nossa vida são como no carnaval, com a sutil diferença de que não sabemos quando irão acabar. Será que teremos tempo de esperar mais um ano para vivermos intensamente cada dia com o sentimento de que tudo irá acabar rapidamente?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Somos todos poetas

Poeta Mário Gomes/Foto de Mika Holanda

Depois de uma conversa de bar com poetas-amigos, um tema bastante sugestivo à ocasião, em forma de pergunta, surgiu à mesa. Afinal, o que é ser poeta?
Muitas pessoas pensam, erroneamente, que poeta é somente aquele que escreve em versos. Escrever um texto em verso não faz, necessariamente, uma pessoa poeta. O poeta é aquele que consegue, com sua sensibilidade, colocar naqueles pequenos versos toda uma vida, toda uma emoção, todo um momento. É, também, o que consegue enxergar além do óbvio, além das palavras. É quem dá alma ao corpo vazio.
Poetas são pessoas que veem a beleza ou a feiura (em todos os sentidos) onde muitos não veem nada, ou fingem não ver.
­– Mesmo não escrevendo, posso ser poeta? – perguntou o senhor sentado à calçada.
– Sim! – respondeu um outro sentado do outro lado da rua.
O poeta olha pela mesma janela todos os dias e todos os dias se encanta com o que não viu no dia anterior. Emociona-se com a atividade infinita, posto que não somos. Desenha animais e aviões onde muitos sequer enxergam uma nuvem. Agradece, silenciosamente, o prazer de uma boa conversa.
Poeta, meu amigo, é o fotógrafo que dá movimento à uma imagem estática, o pintor que dá vida à uma tela em branco, é o ator que morre em cena e desperta a tristeza profunda da plateia.
Ser poeta, é, acima de tudo, a meta a ser alcançada para uma vida plena. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Você realmente lê?

Arte de the flickerees

Acho que já se tornou fastidioso falar que leitura é importante para a vida, para a mente, para a alma. Todo mundo já sabe disso, não é verdade? Por isso não vou listar aqui os 10 motivos pelos quais você deva ler. Todos já sabemos (pelo menos uns mil motivos). A pergunta que me instiga é – você realmente lê?
Todos já sabemos, também, de cor e salteado, que ler não é somente decifrar códigos, mas dar vidas às palavras. Uma leitura sem interação, contexto, interpretação é um diálogo com uma pedra. E uma pessoa em sã consciência não anda conversando com pedras por aí (com plantas, talvez...).
Sabendo disso, ratifico a pergunta: você realmente lê?
A leitura, veja só que engraçado, enquanto pode ser para alguns apenas uma pedra (no real sentido da palavra), para outros se transforma no melhor meio de transporte, no melhor refúgio, nas maiores asas, no melhor amigo. Tudo é questão de interpretação. Oh!
Sabendo disso, retifico a pergunta: você se despe ao ler?
A leitura, e é isso que poucos sabem (ou não admitem) é um ato de coragem. Sim, ATO DE CORAGEM. O leitor necessita se despir diante das palavras para que estas possam se revelar, dialogar, viver. Ninguém, porém, tira sua armadura tão facilmente, não é?
O leitor precisa se desnudar da preguiça, da fadiga, das desculpas, do óbvio, do preconceito e de tudo o que possa atrapalhar na caminhada das linhas (vale para a vida também) e se vestir somente com o necessário (e isso só você sabe o que é).    

Diante de tudo, finalizo com mais uma pergunta: você está realmente despido da sua armadura cotidiana para a próxima leitura?

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

O problema do mundo não está nos outros

Arte de Tommy Ingberg

“Ah! Como é bom culpar aos demais, não é verdade?”
Tenho certeza de que ninguém nunca ouviu alguém falar isso – EU ADORO CULPAR OS OUTROS!! HA-HA-HA, mas certamente em algum momento o fez (ok, a risada maligna foi um exagero), de uma ou outra maneira. Nós, muitas vezes, culpamos o outro para parecermos melhor, sem perceber que isso não funciona da maneira que pensamos.
– Não fui eu, foi o gato...
Culpar o outro não conserta o que foi feito, muito menos nos deixa menos culpados. Isso também vale para relacionamentos. Acredite, os astros não sabem que você namora, então, não culpe o signo do outro pela sua falha.
­– Ah, mas ele era de escorpião...
Isso me lembra uma história fantasiosa de um homem que todos os dias chegava atrasado no trabalho e usava de uma desculpa para justificar esse atraso – foi culpa do trânsito – da chuva – do pneu que furou – Até que chegando ao final do ano e sem mais a quem ou o que culpar, resolveu sair cedo de casa e em um passe de mágicas, pluft, chegou na hora certa.

Essa mesma mágica funciona em todos os momentos da vida, em todas as atitudes, em todos os lugares. Tenta, qualquer dia desses.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A banalização do amor

Fisherman - Claudio Souza Pinto


Imagine a seguinte situação: você está andando pela rua e de repente todos os habitantes da cidade abrem suas janelas e de lá arremessam papéis com escritos representando seus sentimentos, pensamentos, opiniões e, claro, muitas folhas em branco. Você ainda tenta ler algumas, na tentativa de conseguir completar a caminhada,  mas a quantidade de papel é tão absurda que você sucumbe em meio ao mar de folhas.
Loucura? Essa sem dúvida seria a rede social que conhecemos hoje, se não tivessem inventado a internet. Já imaginou?
Que bom então que a inventaram, certo? Certo, foi de grandíssimo valor. Muitas coisas ficaram mais rápidas, mais fáceis, mais cômodas, o mundo ficou pequeno. E parece que nossa mente também. Essa rapidez, esse imediatismo que a internet nos condicionou, reflete-se nos nossos sentimentos. Amamos mais rápido.
Que maravilhoso! – gritou alguém lá da calçada.
Ratificando, postamos que amamos mais rápido. O que temos que ter em mente é que muita coisa entra e sai de moda. Roupas, por exemplo. Hoje achamos meio ridículo os trajes que usamos (ou vimos) nos anos de 1970, mas à época eram ‘supimpa’. Não transformemos o amor em uma roupa, o amor não está na moda. A moda acaba com as pessoas, destrói a personalidade, te força a algo. Se seu amor envolve isto, lamento.
O que está em moda hoje, e mais um vez repito, não confundamos, é a tal da # (hashtag), e se ela vier acompanhada de um te amo, então – #teamo – é como se usássemos uma calça boca de sino nos anos da brilhantina, você é igual a todo mundo.
Ser igual nem sempre é bom, certo? – perguntou a menininha que passeava com o cachorro.

Nunca é bom. Se você ama, diga que ama, poste 25 # (hashtags) e tudo o que tem direito. Mas por favor, não siga uma moda que você possa se arrepender no outro dia. Roupas não têm sentimentos. 


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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sabe aquela velha história de que segunda eu começo?

Arte de Silvio Alvarez

Hoje, caminhando pela calçada, peguei-me pensando na maior promessa feita pela humanidade. Naquela que grande parte da população fez em vão ou fará. Segunda eu começo/eu termino.
Quase fui atropelado.
Depois do susto, surgiu-me outro insight, daqueles que só aparecem nessas situações extremas, e se segunda não existir? Será uma frustração a mais comigo?
Muitos utilizam essa famigerada afirmação como indicativa de que uma atitude só poderá ser tomada no início da semana. Como se a semana começasse na segunda.
O que também não percebemos é que quando chegamos ao ponto de utilizar essa afirmação, que em 90% das vezes não é cumprida, é porque já passamos daquela linha imaginária que marcava o que era o limite, independente da meta que seria estabelecida.
E a coisa mais importante, costumamos nos esquecer que a vida, às vezes, não tem a mesma paciência que nós.
– Então é carpe diem, certo? Falou alguém lá na cozinha.
Não exatamente. Quando Horácio escreveu em seu poema “carpe diem, quam minimum credula postero" ele falava mais em colher o dia de hoje e confiar o mínimo possível no amanhã, e isso nos dias atuais soa como algo irresponsável. Os muitos que tomaram os versos de Horácio como teoria, acordaram no outro dia arrependidos, de uma forma ou outra.
O lugar em que o meu pensamento do quase atropelamento me levou foi para algo mais palpável, senão, mais próximo da nossa realidade.  
– Lá vem mais uma receita de felicidade! Cochichou alguém lá na sala.
Não, não é uma receita. Primeiro porque receitas nunca saem iguais, o que é bom para mim não é para outro. Segundo que isso não existe. Se alguém tentar te vender algo parecido com uma receita de felicidade, não compre. Use o dinheiro para ajudar alguém que certamente te fará mais feliz.

Ele me levou para o óbvio, todos sabemos como ser feliz. Cada um sabe do seu. A única coisa que nos impede é o medo. Medo do novo, do escuro. Talvez seja esse o motivo de tudo começar (na teoria) na segunda-feira, temos tempo para desistir.

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Por que dançar tango?

Juárez Machado


Sem dúvida, essa é uma pergunta que todo mundo (que ainda não dança tango) deve se fazer; por que dançar esse ritmo? Além de outras perguntas, com certeza, devem surgir, a posteriori, algumas afirmações, como: tango é chique demais para mim; ou, tango é complicado demais para mim...
Eu poderia listar algumas dezenas de coisas como forma de convencimento, como o prazer de um abraço, quando se dança; a sinergia quando da escuta de uma canção centenária que ainda vive, encanta e arrepia; a entrega e a confiança quando da caminhada sutil e leve; os risos compartilhados durante uma tanda, as amizades feitas e fortalecidas com as melhores pessoas que se pode encontrar; o aprendizado com a história e a tradição de um patrimônio imaterial.
Poderia, também, discorrer os motivos pelos quais o tango pode mudar uma vida. Falar sobre o aumento da autoestima, a saída do sedentarismo, a aquisição de saúde, o compartilhamento da felicidade.
Talvez até, transcrever depoimentos das dezenas de pessoas que conheço e que tem algo a dizer sobre. Entretanto, sei que tais métodos, hoje, surtem pouco efeito. Sei, inclusive, que poucos lerão até aqui.
Pensando nisso, tentarei responder à pergunta feita inicialmente, da maneira mais prática, fácil e rápida possível, atendendo à demanda atual, com outra pergunta:
Por que deixar para ser feliz depois?

terça-feira, 30 de junho de 2015

Crônica de um homem que não sabia dançar (ou o balé da libertação de pensamentos perdidos)

Michael Cheval

Antes de mais, sim, homem dança. Antes de tudo, não. Não é um bicho de sete cabeças (na verdade não é sequer um bicho).  
Reza a tradição popular que há duas explicações lógicas para o homem que não sabe dançar (poderia ser a mulher também). Primeira: vergonha de errar, de se expor, de parecer ridículo. Segunda: Engoliu um cabo de vassoura.
Admito que, indo em contradição à famigerada música, o primeiro passo não é fácil (leia-se ter a atitude de começar). Há, ainda hoje, infelizmente, muitas pessoas que pensam que a dança não é uma atividade masculina, pobres almas, e isso reflete muito na opinião alheia (as antigas e velhas conhecidas amizades). E há àquelas que veem essa arte como um bicho de sete cabeças.
Aos primeiros deixo meu silêncio (que já é muito). Aos segundos, digo: não existe bicho nenhum na dança, independente do ritmo escolhido. Como disse um professor certa vez, se você sabe caminhar, saberá dançar, e isso é uma verdade incontestável.
Outra verdade é que o principal sinônimo da palavra dança é autoestima. Não existe restrições quanto à idade, peso ou altura. O casal perfeito não é o mais bonito, tampouco o mais esbelto. Sim o que flutua.
 Há também, algumas verdades ocultas, ou que demoramos a percebê-las. É a verdade dos olhos alheios. Acredite, ninguém está olhando para você ou julgando se os seus movimentos estão certos ou errados, mas não adianta dizer, você só admitirá isso depois de certa prática, quando já estiver elaborando passos complexos e ninguém como plateia.
A dança é, acima de tudo, uma atividade de disciplina, de cavalheirismo, de bons modos, de elegância. É uma metáfora da vida e do relacionamento a dois. Há que saber confiar no outro e onde e como pisar.
E por último, dançar é saber utilizar a primeira ação da harmonia, escutar. Não há dança sem música, isso parece ser bastante claro, mas não se engane, saber executar passos aleatórios não é dança, se esta não vier acompanhada da harmonia da canção. 
Entrei nesse mundo mágico-real há alguns meses, (sim, cuspi o cabo de vassoura e a vergonha de errar) e todo dia após mais uma aula ou baile, uma pergunta vem à mente. Por que diabos não comecei mais cedo? Nunca me conformo.  

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O que é o amor?

O Beijo (Le Baiser, 1969) de Pablo Picasso

Afinal, o que é o amor? Perguntaram-me isso há pouco, na rua, por ocasião de um lançamento de livro e não tive dúvidas quanto à resposta. O amor é nuvem (Bukowski disse cão dos infernos, mas vendo aqueles olhos marejados não quis ser tão realista). Ela olhou para o céu, para mim e ficou um pouco mareada com a resposta. Logo em seguida continuou - Como o amor pode ser nuvem se nem ao menos consigo alcançá-la? Se não sei o seu gosto. O seu cheiro. A sua forma. Se não sei como surge ou desaparece? Você é louco, como o amor pode ser tal coisa? Como pode comparar o sublime dos sentimentos à uma simplória coisa sem expressão?, - falou ainda indignada.

Apenas escutava, com um pouco de angústia, é verdade, imaginava o que poderia vir depois dali.

Não deu outra.

Foi quando ela esbravejou que para uma coisa ser amor de verdade, (nunca vi amor de mentira) tinha que tocá-la, emocioná-la, surpreendê-la, tinha que ser grandiosa a tal ponto de ela não saber o que fazer.

A chuva caiu como pedra sobre nós.


Ela, já correndo, sem saber para onde ir, na tentativa de se abrigar do amor que caía e escorria pelo bueiro, digo, da chuva, ainda perguntou baixinho, meio envergonhada – e a paixão? O relâmpago foi tão rápido e o trovão tão ensurdecedor que não precisei responder. 
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