![]() |
| O Nascimento de Vênus (1485), Sandro Botticelli |
Ela, fascinada
pelas modas vendidas em garrafas, nunca ousou sair sequer para a padaria sem
conferir a última. Seguia à risca. Era uma felicidade sair de casa e parecer
estar dentro de uma sala de espelhos, tudo igual, todos iguais. Todo mundo
vestia os mesmos modelos de roupa e usavam os mesmos óculos e celulares. Era
uma felicidade só. Sentia-se incluída em algum lugar que nem mesmo ela sabia
onde era.
O problema maior
veio quando tudo subiu à cabeça. Literalmente. Viu ela, em uma propaganda de
xampu na TV, que bela era a mulher que tinha os cabelos lisos. Correu ao salão na
mesma hora para não ficar ultrapassada, feia.
Nem sequer deu tempo
de chegar em casa com o cabelo novo. Pluft! Escutou no rádio uma outra
propaganda – “Não fique para trás, seja bela, use cabelo encaracolado,
liberte-se”! Deu meia volta, e em muitas horas, estava bela novamente.
Enquanto
caminhava feliz para casa, leu no outdoor
que o vermelho estava de moda. “Seja ruiva”! Resolveu voltar ao salão, mas no
caminho foi bombardeada por outras tantas propagandas. “Chanel voltou com tudo”!
“Anos 20 na cabeça”! “Cultive seu cabelo”! “Loiro pra todo lado”! Enlouqueceu
antes de chegar.
Hoje se contenta
em usar o branquinho básico da camisa de força.
