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| Dancer Adjusting Her Shoe - Edgar Degas |
Olhando-se no espelho,
ela foi aos poucos terminando a lenta e exaustiva maquiagem para sua última
apresentação, lembrando-se dos anos áureos do auge da carreira. Lembrando-se
de toda a vida de dedicação à arte.
Pôs o collant, a
sapatilha e se encaminhou para o palco. Já havia ganho tudo o que se podia
imaginar, prêmios, dinheiro, amigos e fama.
Desde criança sonhava
em ser artista, queria viver de seu talento, fazer fortuna, ser famosa. Depois
que cresceu foi que percebeu o que realmente queria. O que realmente buscava. O
que realmente faltava.
Ali estava ela, diante
das luzes, na ponta, com o sorriso aberto, mas com a felicidade guardada a sete
chaves. Não chegou a se apresentar. Sentou-se, olhou lentamente a plateia do
teatro, como buscando alguém e, mais uma vez, sangrou por dentro. Não mais
aguentando, chorou copiosamente. Todos no teatro aplaudiram, pensando ser a emoção da despedida.
Ninguém ali nunca soube
o porquê daquele choro e o que ela sempre desejou por toda a vida. Pensavam que
já tinha conquistado tudo. Que aquela vida era perfeita. Invejavam toda aquela
fortuna aparente.
Morreu cercada de
medalhas, louros, estranhos e nenhum reconhecimento das pessoas que realmente
importavam. Das pessoas de que tanto buscou na plateia por toda a vida. Morreu sem os
aplausos daqueles que nunca estavam onde deveriam.
Partiu ainda rica, mas
sem nenhuma fortuna.

