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| Foto de Egor Shapovalov |
A vida muda na mesma
velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores
coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na
tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero
imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que
tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do
tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele
passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os
problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e
vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso;
trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se
acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia
logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava...
Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de
morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o
trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver
a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se
libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com
receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do
inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em
mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou
precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das
frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus
sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde
então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.
