terça-feira, 24 de maio de 2016

A obrigação da felicidade

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, 1503-1507.

Iria começar esse texto dissertando sobre o mundo em que vivemos, seus defeitos e pensamentos cada vez mais ultrapassados. Poderia começar falando também sobre as dificuldades de muitos para muitas coisas, sejam básicas ou não. Fazer isso, porém, seria apenas uma redundância, dado que todos vivemos no mesmo lugar. Não é verdade?
Engraçado é que, mesmo todos vivendo, vendo e sentido os turbilhões de pormenores de cada dia, os sorrisos estampados nas fotos dizem algo diferente. “O mundo está cada vez melhor”! Talvez até esteja, isso porque a felicidade nada mais é do que um mero ponto de vista. Tudo depende de onde você olha o mundo, de que lado da cerca está.
E hoje, também, mais do que nunca, vivemos com a mesma sensação de tempos passados, talvez. A sensação de que algo está faltando. A sensação de que estamos sempre em busca do desconhecido. Talvez esse seja o motivo de continuarmos. Talvez. Mas uma coisa que é notável e afirmo sem medo de errar é que enquanto buscamos esse algo, impomos aos outros uma coisa que muitas vezes nos falta. A felicidade. Aquela mesma que não passa de um ponto de vista.
A maior preocupação da humanidade hoje não é ser feliz, e isso já engloba tudo o que você sonha para sua vida ser plena, mas sim tentar demostrar que a sua vida é feliz. Em outras palavras, moldar-se às convenções de uma sociedade falida e preconceituosa. Claro que em suas devidas proporções e sem generalizações, graças a algo que não sei explicar, todos somos distintos, mesmo sendo iguais.
Retrato do Dr. Gachet, Vincent Van Gogh- 1890
Tentamos impor ao outro que nosso jardim é mais verde, que nosso café é mais quente, que a Gioconda está sorrindo, que até o nosso misto quente é de outro mundo, tudo para explicar nossa felicidade da foto de cada dia, porque do contrário, ah do contrário! Podemos ser taxados de estranhos, depressivos, bucólicos, diferentes dos que estão na sociedade (e isso pode ser ótimo!). Diferentes daqueles que continuam felizes, apesar de toda a tristeza que varrem para debaixo do tapete.
Muitos prestam essa felicidade numa glorificação de um matrimônio que já dura 30 anos e que é sólido como uma rocha, exemplo de longevidade, mas que dentro de casa, não passa de gelatina vencida e não é exemplo nenhum de amorosidade, companheirismo. Tudo isso por causa de uma convenção. Uma dívida que nunca entendi. Felicidade é ter claro que o fim de um relacionamento não significa, necessariamente, uma tristeza, pode ser o início da felicidade. Não fomos feitos para nos tornarmos estátuas. Adornos.
Felicidade é ter claro que ninguém precisa saber de cada passo seu, porque as pernas são suas e o tropeço já vai ser uma vitória.
Felicidade é saber que recomeçar é apenas continuar uma jornada mais experiente.
Felicidade, meus caros, é saber que a tristeza é algo naturalmente normal.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser político no Brasil

Bola de gude - Ivan Cruz


Joãozinho desde pequeno tinha um sonho grande. Pensava alto. Queria ser político. Um dia, ainda criança, saiu de casa com toda aquela alegria que os adultos invejam e foi jogar bila (bola de gude) com seus amigos. A brincadeira consistia em acertar a bila do adversário com a sua. De cara, Joãozinho perdeu. Diferentemente dos outros, que quando perdiam, aceitavam, e tentavam melhorar para vencer em uma próxima vez, ele tinha um sonho, um grande sonho! Não demorou e foi logo falando:
– Essa não valeu! Vamos de novo. - com ar de superioridade.
O amigo revoltado com aquilo contestou:
– Mas por que não valeu?
– Porque sim.
As outras crianças, vendo aquilo, também ficaram indignadas e tentaram também opinar contra aquela arbitrariedade, mas antes de abrirem a boca foram logo interpeladas por Zezinho que foi avisando:
– Aqui na rua das bilas também fica proibido opinar.
Mesmo sem ter mais graça nenhuma, Joãozinho e Zezinho ficaram brincando sozinhos com as bilas dos demais coleguinhas. 
– Esses dois têm futuro! - gritou alguém ao longe.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na verdade nem sei se merece um título

Democrart - René Magritte


Deu-se início a votação. A criança, que a tudo assistia na tevê, junto com os pais, já não entendia o que acontecia – mas não era votação? Resolveu perguntar.
– Que festa é essa, papai?
– Não é festa, filho, é uma votação muito importante para nosso futuro.
Alguém joga serpentina no ar. Outros gritam. Alguns riem, gargalham diante de um pronunciamento.
A criança, sem entender como aquilo não era uma festa, acabou saindo da sala resmungando – como aquilo pode ser uma coisa séria? ­– Voltou logo em seguida, curiosa para ver como estava aquela festa, digo aquela votação séria.
Na volta ela assiste mais um pouco, e fica mais uma vez confusa - pessoas de verde e amarelo? Depois de ver muita gente gritando, vaiando, sem respeitar a voz do outro, interpela o pai.
– Mas a votação é de jogo do Brasil, papai?
– Não filho, a votação é sobre nosso futuro.
Mais uma vez o filho sai da sala e ao voltar, cansado por não ter a atenção da família, que não saía da frente da tevê, vê algumas pessoas falando – é para meu filho, minha esposa, é para o papagaio... – Uma festa generalizada e um placar gigante na tela.
– Pai,  foi gol do brasil?
O pai, sem saber o que responder, solta baixinho:
– Sim, filho, mas foi gol contra.
A criança, dando pulos de contente por acertar que se tratava de uma festa do time do Brasil, ainda teve tempo de perguntar ao pai quem era aquele sentado ao centro da mesa.
– Ele é o técnico do Brasil, papai?

O pai não conseguiu responder por causa do choro repentino.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O mundo perfeito

Dream world - Jacek Yerka

Ela, que sempre dizia que tudo era perfeito, brigava de veras com quem discordava daquela opinião. – "Você não vê, o mundo é lindo, tudo é perfeito, as pessoas, minha nossa, como são boas, e olha a política...!” - Berrava à amiga inconsolada. O importante, segundo ela, era não ver o que acontecia para não pensar negativamente. “Se você não vê”, dizia ela, “não existe”. Dessa forma, para sustentar suas ideologias, adotou novos hábitos.
Começou por não mais escutar o rádio de que tanto amava. Não demorou muito e a TV da casa nem mais era ligada à tomada. Aos poucos também foi evitando sair de casa e, por fim, parou de olhar a rua pela janela.

A amiga, preocupada, ligou para ela afim de tentar solucionar aqueles problemas. Como pode!? Conversa vai, conversa vem, ela finalmente assume que o mundo realmente não é perfeito, que sim, tem algo de muito errado nisso tudo. Resolveu pintar o quarto de verde-limão. “ ­Na cor que estava era inadmissível!” - falou com ar de determinada.

terça-feira, 29 de março de 2016

A beleza vendida em garrafas

O Nascimento de Vênus (1485), Sandro Botticelli


Ela, fascinada pelas modas vendidas em garrafas, nunca ousou sair sequer para a padaria sem conferir a última. Seguia à risca. Era uma felicidade sair de casa e parecer estar dentro de uma sala de espelhos, tudo igual, todos iguais. Todo mundo vestia os mesmos modelos de roupa e usavam os mesmos óculos e celulares. Era uma felicidade só. Sentia-se incluída em algum lugar que nem mesmo ela sabia onde era.
O problema maior veio quando tudo subiu à cabeça. Literalmente. Viu ela, em uma propaganda de xampu na TV, que bela era a mulher que tinha os cabelos lisos. Correu ao salão na mesma hora para não ficar ultrapassada, feia.
Nem sequer deu tempo de chegar em casa com o cabelo novo. Pluft! Escutou no rádio uma outra propaganda – “Não fique para trás, seja bela, use cabelo encaracolado, liberte-se”! Deu meia volta, e em muitas horas, estava bela novamente.
Enquanto caminhava feliz para casa, leu no outdoor que o vermelho estava de moda. “Seja ruiva”! Resolveu voltar ao salão, mas no caminho foi bombardeada por outras tantas propagandas. “Chanel voltou com tudo”! “Anos 20 na cabeça”! “Cultive seu cabelo”! “Loiro pra todo lado”! Enlouqueceu antes de chegar.
Hoje se contenta em usar o branquinho básico da camisa de força.


quarta-feira, 23 de março de 2016

Viver esperando é agonizar no presente

Michael Cheval - Time to love


Não adiantam cálculos, anotações passadas, experiências vividas, amar é sempre andar no escuro. Não importa a idade ou quantos relacionamento já viveu. Não existe vacina para a desilusão, tampouco vitaminas para a felicidade. Cada amor é único, e isso não é poesia, é química. A química do amor.
Tudo começa com as palpitações estranhas, as mãos suadas, a voz ausente. Tudo quase sempre começa da mesma forma. Com os mesmos pensamentos distintos, que dessa vez vai ser diferente. E é! Sempre é.
Coincidência à parte, tudo, também, quase sempre acaba da mesma forma.
Triste, porém, são os que, ao terminar um relacionamento, já disparam – “foram anos perdidos”! Até podem ter sido, mas não é porque chegou ao fim que tudo foi em vão. Não é simplesmente porque terminou, que o passado não mais existe. O importante foi o que se viveu, conviveu, amou e, principalmente, o que se aprendeu. Tudo é aprendizado. Aprendizado para a vida, para a alma, porque amar, como já falei, é andar no escuro. Podemos cair no mesmo buraco infinitas vezes.

Felizes não são os que ficam juntos para sempre. Felizes são aqueles que vivem sem se preocupar com isso. Vivem o hoje, o agora. Se você passa toda uma vida preocupado com uma coisa que sequer existe, esquece de viver.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A culpa é dos outros

O filho do homem - Magritte
Era uma vez, em um país fictício muito distante, a história inventada do homem imaginário que resolveu protestar contra a corrupção. Saiu no seu carro de mentira em direção ao protesto e no caminho lembrou-se de abastecer. Ainda com o dinheiro do voto que havia vendido, encheu o tanque.
Chegando lá, viu uma multidão, ficou feliz que finalmente o povo havia acordado para os abusos de alguns - ainda gritou de dentro do carro em coro com muitos – "punição aos corruptos!". E mais uma vez lembrou-se que precisava estacionar. Como não encontrava uma vaga perto do protesto, estacionou ali mesmo, na vaga que estava livre.  - Vaga para deficiente/idoso -.
Gritou em coro. Fez selfie. Comeu e bebeu.
Ao voltar, deparou-se com a polícia rebocando seu carro. Ficou indignado pela situação e foi logo dizendo que todos eram um bando de ladrões que apenas queriam ganhar dinheiro por meio de multas. – "Ódio desses corruptos!" - Gritou antes de ir preso por tentativa de suborno para liberar o carro.
No dia seguinte, foi solto e voltou para casa de ônibus com sua carteirinha de estudante falsa. Indignado, ainda escreveu na rede social antes de assistir a série favorita na TV a cabo pirata - "A culpa é dos 'outros'".   
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