sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Santo de casa

Dancer Adjusting Her Shoe - Edgar Degas

Olhando-se no espelho, ela foi aos poucos terminando a lenta e exaustiva maquiagem para sua última apresentação, lembrando-se dos anos áureos do auge da carreira. Lembrando-se de toda a vida de dedicação à arte.
Pôs o collant, a sapatilha e se encaminhou para o palco. Já havia ganho tudo o que se podia imaginar, prêmios, dinheiro, amigos e fama. 
Desde criança sonhava em ser artista, queria viver de seu talento, fazer fortuna, ser famosa. Depois que cresceu foi que percebeu o que realmente queria. O que realmente buscava. O que realmente faltava.
Ali estava ela, diante das luzes, na ponta, com o sorriso aberto, mas com a felicidade guardada a sete chaves. Não chegou a se apresentar. Sentou-se, olhou lentamente a plateia do teatro, como buscando alguém e, mais uma vez, sangrou por dentro. Não mais aguentando, chorou copiosamente. Todos no teatro aplaudiram, pensando ser a emoção da despedida.
Ninguém ali nunca soube o porquê daquele choro e o que ela sempre desejou por toda a vida. Pensavam que já tinha conquistado tudo. Que aquela vida era perfeita. Invejavam toda aquela fortuna aparente.
Morreu cercada de medalhas, louros, estranhos e nenhum reconhecimento das pessoas que realmente importavam. Das pessoas de que tanto buscou na plateia por toda a vida. Morreu sem os aplausos daqueles que nunca estavam onde deveriam.
Partiu ainda rica, mas sem nenhuma fortuna.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Fogo brando

Arte de Valentina Photos

Premiado no Prêmio Maximiano Campos de Literatura – Categoria: melhor miniconto.

Foi exatamente, coincidência ou não, quando as trevas me cegaram que pude enxergá-la. Observava-me com olhos de fogo brando, em silêncio de incêndio recém-acabado. Não pronunciou-me nenhuma faísca, ou fogo de festa em noite fria, apenas queimava-me com olhares de soslaio. Deixei-me ser marcado.
Aos poucos, todo o meu corpo ia sendo consumido, ou o que havia restado dele depois das trevas impiedosas, meu sangue borbulhava novamente, assim como quando havia caído. Não era uma ressurreição ou uma volta aos céus, eu continuava a descer, entretanto, dessa vez era diferente.
Senti medo, é certo, quem não sentiria? Era fogo nunca visto antes, era incêndio em mata seca.
Quando cheguei ao último degrau, acompanhado do medo e da dúvida, a vi recuando, a chama sem trégua, o fogo sem medo, o incêndio sem precedentes. Talvez eu fosse água.

* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje.
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

A vida é uma música sem fim

Everett Collection



Quando ouvimos a música pela primeira vez, o estranhamento sobe à superfície e a pergunta clássica ressoa pelas paredes, por que me tiraram o silêncio aconchegante? Tudo é novo, tudo é estranho, mas aos poucos nos acostumamos com o diferente, e até que, às vezes, gostamos do ritmo, das vozes, do balanço.
Não demora muito, e o pé direito começa a se chocar contra o solo em ritmo contínuo, tentamos de todas as formas acompanhar aquele som. Ficamos de pé, para tentar aproveitar da melhor forma possível. Muitas vezes caímos, é certo. A queda, aprendemos, muitas muitas vezes e somente alguns, que faz parte. A queda, ainda sim, é um passo.
Tentamos de um jeito, de outro e aos poucos podemos dizer que dançamos ao ritmo da música que toca. Ou pelo menos tentamos, o importante, em muitos casos, é continuar tentando, um dia acertamos o ritmo e pronto, a dança será plena.
Não demora muito e percebemos que dançar sozinho é menos feliz que acompanhado. Começamos a compartilhar abraços e percebemos que mais difícil que encontrar o par perfeito para a dança é acompanhar o ritmo do outro. Muitos conseguem, muitos desistem, muitos não cansam em procurar.
Os que estão de fora (não são todos) veem defeitos nos passos de quem dança, os que estão dançando (não são todos) veem defeitos naqueles que estão sentados, os que não escutam a música (sim, são todos) não conseguem ver muita coisa, além do próprio reflexo.
Mesmo quando não conseguimos ficar de pé, a música continua. Continua viva, no ritmo certo, e dançamos com os olhos, com a boca, com a mente.
Os que não escutam a música e não sentem o ritmo, não admiram a dança, não aproveitam o abraço, não abrem aquele sorriso com a síncope, sequer conseguem ficar de pé por muito tempo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O real sentido da vida

Foto de Bruno Mota Pinheiro.


Estava ontem a pensar sobre o real sentido da vida e o desespero se abateu sobre minhas asas. Tanto céu, tantas nuvens, tanto vento e eu aqui perdido, não no espaço, mas nos pensamentos. Sei muito bem onde estou, por isso essa minha agonia.
Todos os dias sempre buscava as migalhas do 43, todos os dias. O céu para mim estava sob o céu, abaixo daquela janela. Ela sabia que eu iria naque­le horário e observava-me com timidez, com vergo­nha, com inveja. Sim, assim como eu, ela também buscava um sentido, buscava encontrar-se em pen­samentos, pensava que a vida era um sonho.
A vida talvez seja um sonho, quem sabe? O problema é que ela tentou despertar. Do alto do prédio, observou o horizonte, como quem diz oi ou adeus, bateu asas, mas não voou.

Hoje, sinto uma dor imensurável, não sei se pela falta das migalhas de cada dia, ou por ter asas e não voar.


* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje, e inspirado na foto da postagem.
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sexta-feira, 3 de junho de 2016

A vida de ninguém

Foto de Egor Shapovalov

A vida muda na mesma velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso; trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava... Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A obrigação da felicidade

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, 1503-1507.

Iria começar esse texto dissertando sobre o mundo em que vivemos, seus defeitos e pensamentos cada vez mais ultrapassados. Poderia começar falando também sobre as dificuldades de muitos para muitas coisas, sejam básicas ou não. Fazer isso, porém, seria apenas uma redundância, dado que todos vivemos no mesmo lugar. Não é verdade?
Engraçado é que, mesmo todos vivendo, vendo e sentido os turbilhões de pormenores de cada dia, os sorrisos estampados nas fotos dizem algo diferente. “O mundo está cada vez melhor”! Talvez até esteja, isso porque a felicidade nada mais é do que um mero ponto de vista. Tudo depende de onde você olha o mundo, de que lado da cerca está.
E hoje, também, mais do que nunca, vivemos com a mesma sensação de tempos passados, talvez. A sensação de que algo está faltando. A sensação de que estamos sempre em busca do desconhecido. Talvez esse seja o motivo de continuarmos. Talvez. Mas uma coisa que é notável e afirmo sem medo de errar é que enquanto buscamos esse algo, impomos aos outros uma coisa que muitas vezes nos falta. A felicidade. Aquela mesma que não passa de um ponto de vista.
A maior preocupação da humanidade hoje não é ser feliz, e isso já engloba tudo o que você sonha para sua vida ser plena, mas sim tentar demostrar que a sua vida é feliz. Em outras palavras, moldar-se às convenções de uma sociedade falida e preconceituosa. Claro que em suas devidas proporções e sem generalizações, graças a algo que não sei explicar, todos somos distintos, mesmo sendo iguais.
Retrato do Dr. Gachet, Vincent Van Gogh- 1890
Tentamos impor ao outro que nosso jardim é mais verde, que nosso café é mais quente, que a Gioconda está sorrindo, que até o nosso misto quente é de outro mundo, tudo para explicar nossa felicidade da foto de cada dia, porque do contrário, ah do contrário! Podemos ser taxados de estranhos, depressivos, bucólicos, diferentes dos que estão na sociedade (e isso pode ser ótimo!). Diferentes daqueles que continuam felizes, apesar de toda a tristeza que varrem para debaixo do tapete.
Muitos prestam essa felicidade numa glorificação de um matrimônio que já dura 30 anos e que é sólido como uma rocha, exemplo de longevidade, mas que dentro de casa, não passa de gelatina vencida e não é exemplo nenhum de amorosidade, companheirismo. Tudo isso por causa de uma convenção. Uma dívida que nunca entendi. Felicidade é ter claro que o fim de um relacionamento não significa, necessariamente, uma tristeza, pode ser o início da felicidade. Não fomos feitos para nos tornarmos estátuas. Adornos.
Felicidade é ter claro que ninguém precisa saber de cada passo seu, porque as pernas são suas e o tropeço já vai ser uma vitória.
Felicidade é saber que recomeçar é apenas continuar uma jornada mais experiente.
Felicidade, meus caros, é saber que a tristeza é algo naturalmente normal.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser político no Brasil

Bola de gude - Ivan Cruz


Joãozinho desde pequeno tinha um sonho grande. Pensava alto. Queria ser político. Um dia, ainda criança, saiu de casa com toda aquela alegria que os adultos invejam e foi jogar bila (bola de gude) com seus amigos. A brincadeira consistia em acertar a bila do adversário com a sua. De cara, Joãozinho perdeu. Diferentemente dos outros, que quando perdiam, aceitavam, e tentavam melhorar para vencer em uma próxima vez, ele tinha um sonho, um grande sonho! Não demorou e foi logo falando:
– Essa não valeu! Vamos de novo. - com ar de superioridade.
O amigo revoltado com aquilo contestou:
– Mas por que não valeu?
– Porque sim.
As outras crianças, vendo aquilo, também ficaram indignadas e tentaram também opinar contra aquela arbitrariedade, mas antes de abrirem a boca foram logo interpeladas por Zezinho que foi avisando:
– Aqui na rua das bilas também fica proibido opinar.
Mesmo sem ter mais graça nenhuma, Joãozinho e Zezinho ficaram brincando sozinhos com as bilas dos demais coleguinhas. 
– Esses dois têm futuro! - gritou alguém ao longe.


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