quinta-feira, 14 de julho de 2016
sexta-feira, 1 de julho de 2016
O real sentido da vida
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| Foto de Bruno Mota Pinheiro. |
Estava
ontem a pensar sobre o real sentido da vida e o desespero se abateu sobre
minhas asas. Tanto céu, tantas nuvens, tanto vento e eu aqui perdido, não no
espaço, mas nos pensamentos. Sei muito bem onde estou, por isso essa minha
agonia.
Todos
os dias sempre buscava as migalhas do 43, todos os dias. O céu para mim estava
sob o céu, abaixo daquela janela. Ela sabia que eu iria naquele horário e
observava-me com timidez, com vergonha, com inveja. Sim, assim como eu, ela
também buscava um sentido, buscava encontrar-se em pensamentos, pensava que a
vida era um sonho.
A
vida talvez seja um sonho, quem sabe? O problema é que ela tentou despertar. Do
alto do prédio, observou o horizonte, como quem diz oi ou adeus, bateu asas,
mas não voou.
Hoje,
sinto uma dor imensurável, não sei se pela falta das migalhas de cada dia, ou
por ter asas e não voar.
* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje, e inspirado na foto da postagem.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
A vida de ninguém
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| Foto de Egor Shapovalov |
A vida muda na mesma
velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores
coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na
tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero
imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que
tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do
tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele
passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os
problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e
vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso;
trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se
acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia
logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava...
Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de
morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o
trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver
a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se
libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com
receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do
inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em
mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou
precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das
frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus
sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde
então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.
terça-feira, 24 de maio de 2016
A obrigação da felicidade
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| Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, 1503-1507. |
Iria começar esse texto dissertando sobre o mundo em
que vivemos, seus defeitos e pensamentos cada vez mais ultrapassados. Poderia
começar falando também sobre as dificuldades de muitos para muitas coisas,
sejam básicas ou não. Fazer isso, porém, seria apenas uma redundância, dado que
todos vivemos no mesmo lugar. Não é verdade?
Engraçado é que, mesmo todos vivendo, vendo e sentido
os turbilhões de pormenores de cada dia, os sorrisos estampados nas fotos dizem
algo diferente. “O mundo está cada vez melhor”! Talvez até esteja, isso porque
a felicidade nada mais é do que um mero ponto de vista. Tudo depende de onde
você olha o mundo, de que lado da cerca está.
E hoje, também, mais do que nunca, vivemos com a mesma
sensação de tempos passados, talvez. A sensação de que algo está faltando. A sensação
de que estamos sempre em busca do desconhecido. Talvez esse seja o motivo de
continuarmos. Talvez. Mas uma coisa que é notável e afirmo sem medo de errar é
que enquanto buscamos esse algo, impomos aos outros uma coisa que muitas vezes
nos falta. A felicidade. Aquela mesma que não passa de um ponto de vista.
A maior preocupação da humanidade hoje não é ser
feliz, e isso já engloba tudo o que você sonha para sua vida ser plena, mas sim
tentar demostrar que a sua vida é feliz. Em outras palavras, moldar-se às
convenções de uma sociedade falida e preconceituosa. Claro que em suas devidas
proporções e sem generalizações, graças a algo que não sei explicar, todos somos
distintos, mesmo sendo iguais.
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| Retrato do Dr. Gachet, Vincent Van Gogh- 1890 |
Tentamos impor ao outro que nosso jardim é mais verde,
que nosso café é mais quente, que a Gioconda está sorrindo, que até o nosso
misto quente é de outro mundo, tudo para explicar nossa felicidade da foto de
cada dia, porque do contrário, ah do contrário! Podemos ser taxados de
estranhos, depressivos, bucólicos, diferentes dos que estão na sociedade (e
isso pode ser ótimo!). Diferentes daqueles que continuam felizes, apesar de
toda a tristeza que varrem para debaixo do tapete.
Muitos prestam essa felicidade numa glorificação de um
matrimônio que já dura 30 anos e que é sólido como uma rocha, exemplo de
longevidade, mas que dentro de casa, não passa de gelatina vencida e não é
exemplo nenhum de amorosidade, companheirismo. Tudo isso por causa de uma
convenção. Uma dívida que nunca entendi. Felicidade é ter claro que o fim de um
relacionamento não significa, necessariamente, uma tristeza, pode ser o início
da felicidade. Não fomos feitos para nos tornarmos estátuas. Adornos.
Felicidade é ter claro que ninguém precisa saber de
cada passo seu, porque as pernas são suas e o tropeço já vai ser uma vitória.
Felicidade é saber que recomeçar é apenas continuar
uma jornada mais experiente.
Felicidade, meus caros, é saber que a tristeza é algo naturalmente
normal.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Ser político no Brasil
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| Bola de gude - Ivan Cruz |
Joãozinho desde pequeno tinha um sonho grande. Pensava alto.
Queria ser político. Um dia, ainda criança, saiu de casa com toda aquela
alegria que os adultos invejam e foi jogar bila (bola de gude) com seus amigos.
A brincadeira consistia em acertar a bila do adversário com a sua. De cara, Joãozinho
perdeu. Diferentemente dos outros, que quando perdiam, aceitavam, e tentavam
melhorar para vencer em uma próxima vez, ele tinha um sonho, um grande sonho! Não
demorou e foi logo falando:
– Essa não valeu! Vamos de novo. - com ar de superioridade.
O amigo revoltado com aquilo contestou:
– Mas por que não valeu?
– Porque sim.
As outras crianças, vendo aquilo, também ficaram indignadas e
tentaram também opinar contra aquela arbitrariedade, mas antes de abrirem a
boca foram logo interpeladas por Zezinho que foi avisando:
– Aqui na rua das bilas também fica proibido opinar.
Mesmo sem ter mais graça nenhuma, Joãozinho e Zezinho ficaram
brincando sozinhos com as bilas dos demais coleguinhas.
– Esses dois têm futuro! - gritou alguém ao longe.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Na verdade nem sei se merece um título
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| Democrart - René Magritte |
Deu-se início a
votação. A criança, que a tudo assistia na tevê, junto com os pais, já não
entendia o que acontecia – mas não era votação? Resolveu perguntar.
– Que festa é
essa, papai?
– Não é festa,
filho, é uma votação muito importante para nosso futuro.
Alguém joga
serpentina no ar. Outros gritam. Alguns riem, gargalham diante de um
pronunciamento.
A criança, sem
entender como aquilo não era uma festa, acabou saindo da sala resmungando –
como aquilo pode ser uma coisa séria? – Voltou logo em seguida, curiosa para
ver como estava aquela festa, digo aquela votação séria.
Na volta ela
assiste mais um pouco, e fica mais uma vez confusa - pessoas de verde e
amarelo? Depois de ver muita gente gritando, vaiando, sem respeitar a voz do
outro, interpela o pai.
– Mas a votação é
de jogo do Brasil, papai?
– Não filho, a
votação é sobre nosso futuro.
Mais uma vez o
filho sai da sala e ao voltar, cansado por não ter a atenção da família, que
não saía da frente da tevê, vê algumas pessoas falando – é para meu filho,
minha esposa, é para o papagaio... – Uma festa generalizada e um placar gigante
na tela.
– Pai, foi gol do brasil?
O pai, sem saber
o que responder, solta baixinho:
– Sim, filho, mas
foi gol contra.
A criança, dando
pulos de contente por acertar que se tratava de uma festa do time do Brasil,
ainda teve tempo de perguntar ao pai quem era aquele sentado ao centro da mesa.
– Ele é o técnico
do Brasil, papai?
O pai não
conseguiu responder por causa do choro repentino.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
O mundo perfeito
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| Dream world - Jacek Yerka |
Ela, que sempre
dizia que tudo era perfeito, brigava de veras com quem discordava daquela
opinião. – "Você não vê, o mundo é lindo, tudo é perfeito, as pessoas, minha
nossa, como são boas, e olha a política...!” - Berrava à amiga inconsolada. O importante,
segundo ela, era não ver o que acontecia para não pensar negativamente. “Se
você não vê”, dizia ela, “não existe”. Dessa forma, para sustentar suas
ideologias, adotou novos hábitos.
Começou por não
mais escutar o rádio de que tanto amava. Não demorou muito e a TV da casa nem
mais era ligada à tomada. Aos poucos também foi evitando sair de casa e, por
fim, parou de olhar a rua pela janela.
A amiga,
preocupada, ligou para ela afim de tentar solucionar aqueles problemas. Como
pode!? Conversa vai, conversa vem, ela finalmente assume que o mundo realmente
não é perfeito, que sim, tem algo de muito errado nisso tudo. Resolveu pintar o
quarto de verde-limão. “ Na cor que estava era inadmissível!” - falou com ar
de determinada.
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