terça-feira, 1 de março de 2016

A ausência fez-se presente

Marcel Caram



Outro dia, uma cena bastante curiosa, apesar de comum, infelizmente, chamou-me a atenção. A ausência havia saído para comer. "O que há de errado, hora mais! Todos têm esse direito". O problema é que aquele silêncio estava-me cortando a espinha.
Haviam três à mesa, mas somente a ausência fazia-se presente. Era uma convidada de honra, uma amiga do peito, uma constante durante todo o encontro. Era ela, inclusive, quem falava ao garçom o que os outros dois queriam comer, beber e quando poderiam se levantar para ir ao banheiro.
Por todo o tempo que permaneceram lá, em nenhum momento se olharam nos olhos, trocaram palavras, ou riram de alguma bobagem. Por todo o tempo comeram e não saborearam, beberam e não mataram a sede, estavam juntos e ao mesmo tempo distantes.
Quando saíram do restaurante e guardaram seus respectivos celulares no bolso, pareciam Adão e Eva quando da vergonha de estarem nus. Eram dois estranhos sem ter o que dizer um para o outro. Preferiram o silêncio de um beijo seco.

A ausência foi a única quem percebeu que a pizza estava estragada.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O retrato quase perfeito da vida cotidiana

Obra Batucada, de Carybé.
Ah, o carnaval! Quantos gritaram aos sete ventos e em muitas ladeiras que iriam aproveitar ao máximo aqueles dias antes de voltar à vida “normal”? Quantos falaram baixinho que não poderiam perder tempo? Quantos não se deram conta de que com ou sem carnaval continuamos mortais?
O carnaval, como tantos outros dias festivos no nosso calendário, é o retrato quase perfeito da nossa vida cotidiana. Vivemos esses dias sabendo a data exata que acabará, por isso, quase sempre são vividos intensamente. São nesses dias que temos mais coragem de ir além, porque perder tempo não é opção.
São nesses dias que a vida é mais alegre, porque a tristeza não tem vez. São nesses dias que acordamos pensando em fazer algo diferente do dia anterior, usar uma outra fantasia, ser o que sonhou, porque tudo dura pouco, tudo é efêmero.
São nesses dias que nos esquecemos de que todos os outros dias da nossa vida são como no carnaval, com a sutil diferença de que não sabemos quando irão acabar. Será que teremos tempo de esperar mais um ano para vivermos intensamente cada dia com o sentimento de que tudo irá acabar rapidamente?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Somos todos poetas

Poeta Mário Gomes/Foto de Mika Holanda

Depois de uma conversa de bar com poetas-amigos, um tema bastante sugestivo à ocasião, em forma de pergunta, surgiu à mesa. Afinal, o que é ser poeta?
Muitas pessoas pensam, erroneamente, que poeta é somente aquele que escreve em versos. Escrever um texto em verso não faz, necessariamente, uma pessoa poeta. O poeta é aquele que consegue, com sua sensibilidade, colocar naqueles pequenos versos toda uma vida, toda uma emoção, todo um momento. É, também, o que consegue enxergar além do óbvio, além das palavras. É quem dá alma ao corpo vazio.
Poetas são pessoas que veem a beleza ou a feiura (em todos os sentidos) onde muitos não veem nada, ou fingem não ver.
­– Mesmo não escrevendo, posso ser poeta? – perguntou o senhor sentado à calçada.
– Sim! – respondeu um outro sentado do outro lado da rua.
O poeta olha pela mesma janela todos os dias e todos os dias se encanta com o que não viu no dia anterior. Emociona-se com a atividade infinita, posto que não somos. Desenha animais e aviões onde muitos sequer enxergam uma nuvem. Agradece, silenciosamente, o prazer de uma boa conversa.
Poeta, meu amigo, é o fotógrafo que dá movimento à uma imagem estática, o pintor que dá vida à uma tela em branco, é o ator que morre em cena e desperta a tristeza profunda da plateia.
Ser poeta, é, acima de tudo, a meta a ser alcançada para uma vida plena. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A fantástica história inventada do rapaz que queria mudar de vida no ‘ano novo’

Magritte. The Therapist

Era uma vez, em uma cidade fantasiosa, a fantástica história inventada do rapaz que queria mudar de vida. De tão absurda, essa história sequer iria ao papel, mas dadas as circunstâncias, resolvi assim fazer.
Esse rapaz, de nome fácil, dizia sempre que a vida estava difícil demais da conta, que daquele jeito não poderia mais continuar.
– Vou mudar de vida! Gritava para quem quisesse ouvir.
Não estava feliz, isso era certo. Dizia ele que nada estava como deveria, que algo tinha que mudar, que seria um novo homem.
– Serei um novo homem. Gritava para quem quisesse ouvir.
Nada dava certo no trabalho, já estava acima do peso, e o relacionamento, ah! Já estava ladeira abaixo. Decidiu cambiar de vida.
Esperou todo o ano passar, dado que só se pode mudar de vida no início do ano. Dia 1 de janeiro, porém, viu que a única coisa que havia mudado era a cor do calendário. Repetiu todo o discurso.

– Em janeiro de 2017 tudo vai dar certo. Sussurrou ao vento.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Desastre somos nós




Uma criança que assistia a tudo pela tevê ficava cada vez mais confusa com toda aquela situação, passava a mão na cabeça, colocava a mão no queixo, olhava pela janela, mas nada disso a fez responder àquela pergunta tão difícil a alguém de tão pouca idade. Teve de recorrer à mãe que passava pela sala naquele momento.

- Mãe, o que é crime?

A mãe do garoto, assustada com aquela pergunta repentina e sem saber explicar corretamente o significado da palavra, recorreu ao dicionário, discretamente,  que estava na estante e respondeu com fluência para o garoto.

-Violação das regras que a sociedade considera indispensáveis à sua existência.

- Então matar é crime, certo, mãe? Mas é claro meu filho, retrucou a mãe imediatamente.

E o filho continuou: então por que dizem na tevê que o rompimento das barragens, que matou pessoas, animais, plantas e a esperança de muitos, por negligência, dinheiro e ganância foi um desastre e não um crime? Será que eles não têm dicionário como a senhora?

A mãe do garoto toda envergonhada pela situação tentou ainda mudar de assunto, mas foi a criança que pôs um ponto final na conversa.

- Ah, entendi mãe, entendi. Foi um desastre sim, mas um desastre humano! 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Você realmente lê?

Arte de the flickerees

Acho que já se tornou fastidioso falar que leitura é importante para a vida, para a mente, para a alma. Todo mundo já sabe disso, não é verdade? Por isso não vou listar aqui os 10 motivos pelos quais você deva ler. Todos já sabemos (pelo menos uns mil motivos). A pergunta que me instiga é – você realmente lê?
Todos já sabemos, também, de cor e salteado, que ler não é somente decifrar códigos, mas dar vidas às palavras. Uma leitura sem interação, contexto, interpretação é um diálogo com uma pedra. E uma pessoa em sã consciência não anda conversando com pedras por aí (com plantas, talvez...).
Sabendo disso, ratifico a pergunta: você realmente lê?
A leitura, veja só que engraçado, enquanto pode ser para alguns apenas uma pedra (no real sentido da palavra), para outros se transforma no melhor meio de transporte, no melhor refúgio, nas maiores asas, no melhor amigo. Tudo é questão de interpretação. Oh!
Sabendo disso, retifico a pergunta: você se despe ao ler?
A leitura, e é isso que poucos sabem (ou não admitem) é um ato de coragem. Sim, ATO DE CORAGEM. O leitor necessita se despir diante das palavras para que estas possam se revelar, dialogar, viver. Ninguém, porém, tira sua armadura tão facilmente, não é?
O leitor precisa se desnudar da preguiça, da fadiga, das desculpas, do óbvio, do preconceito e de tudo o que possa atrapalhar na caminhada das linhas (vale para a vida também) e se vestir somente com o necessário (e isso só você sabe o que é).    

Diante de tudo, finalizo com mais uma pergunta: você está realmente despido da sua armadura cotidiana para a próxima leitura?

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

O problema do mundo não está nos outros

Arte de Tommy Ingberg

“Ah! Como é bom culpar aos demais, não é verdade?”
Tenho certeza de que ninguém nunca ouviu alguém falar isso – EU ADORO CULPAR OS OUTROS!! HA-HA-HA, mas certamente em algum momento o fez (ok, a risada maligna foi um exagero), de uma ou outra maneira. Nós, muitas vezes, culpamos o outro para parecermos melhor, sem perceber que isso não funciona da maneira que pensamos.
– Não fui eu, foi o gato...
Culpar o outro não conserta o que foi feito, muito menos nos deixa menos culpados. Isso também vale para relacionamentos. Acredite, os astros não sabem que você namora, então, não culpe o signo do outro pela sua falha.
­– Ah, mas ele era de escorpião...
Isso me lembra uma história fantasiosa de um homem que todos os dias chegava atrasado no trabalho e usava de uma desculpa para justificar esse atraso – foi culpa do trânsito – da chuva – do pneu que furou – Até que chegando ao final do ano e sem mais a quem ou o que culpar, resolveu sair cedo de casa e em um passe de mágicas, pluft, chegou na hora certa.

Essa mesma mágica funciona em todos os momentos da vida, em todas as atitudes, em todos os lugares. Tenta, qualquer dia desses.

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