quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sabe aquela velha história de que segunda eu começo?

Arte de Silvio Alvarez

Hoje, caminhando pela calçada, peguei-me pensando na maior promessa feita pela humanidade. Naquela que grande parte da população fez em vão ou fará. Segunda eu começo/eu termino.
Quase fui atropelado.
Depois do susto, surgiu-me outro insight, daqueles que só aparecem nessas situações extremas, e se segunda não existir? Será uma frustração a mais comigo?
Muitos utilizam essa famigerada afirmação como indicativa de que uma atitude só poderá ser tomada no início da semana. Como se a semana começasse na segunda.
O que também não percebemos é que quando chegamos ao ponto de utilizar essa afirmação, que em 90% das vezes não é cumprida, é porque já passamos daquela linha imaginária que marcava o que era o limite, independente da meta que seria estabelecida.
E a coisa mais importante, costumamos nos esquecer que a vida, às vezes, não tem a mesma paciência que nós.
– Então é carpe diem, certo? Falou alguém lá na cozinha.
Não exatamente. Quando Horácio escreveu em seu poema “carpe diem, quam minimum credula postero" ele falava mais em colher o dia de hoje e confiar o mínimo possível no amanhã, e isso nos dias atuais soa como algo irresponsável. Os muitos que tomaram os versos de Horácio como teoria, acordaram no outro dia arrependidos, de uma forma ou outra.
O lugar em que o meu pensamento do quase atropelamento me levou foi para algo mais palpável, senão, mais próximo da nossa realidade.  
– Lá vem mais uma receita de felicidade! Cochichou alguém lá na sala.
Não, não é uma receita. Primeiro porque receitas nunca saem iguais, o que é bom para mim não é para outro. Segundo que isso não existe. Se alguém tentar te vender algo parecido com uma receita de felicidade, não compre. Use o dinheiro para ajudar alguém que certamente te fará mais feliz.

Ele me levou para o óbvio, todos sabemos como ser feliz. Cada um sabe do seu. A única coisa que nos impede é o medo. Medo do novo, do escuro. Talvez seja esse o motivo de tudo começar (na teoria) na segunda-feira, temos tempo para desistir.

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Por que dançar tango?

Juárez Machado


Sem dúvida, essa é uma pergunta que todo mundo (que ainda não dança tango) deve se fazer; por que dançar esse ritmo? Além de outras perguntas, com certeza, devem surgir, a posteriori, algumas afirmações, como: tango é chique demais para mim; ou, tango é complicado demais para mim...
Eu poderia listar algumas dezenas de coisas como forma de convencimento, como o prazer de um abraço, quando se dança; a sinergia quando da escuta de uma canção centenária que ainda vive, encanta e arrepia; a entrega e a confiança quando da caminhada sutil e leve; os risos compartilhados durante uma tanda, as amizades feitas e fortalecidas com as melhores pessoas que se pode encontrar; o aprendizado com a história e a tradição de um patrimônio imaterial.
Poderia, também, discorrer os motivos pelos quais o tango pode mudar uma vida. Falar sobre o aumento da autoestima, a saída do sedentarismo, a aquisição de saúde, o compartilhamento da felicidade.
Talvez até, transcrever depoimentos das dezenas de pessoas que conheço e que tem algo a dizer sobre. Entretanto, sei que tais métodos, hoje, surtem pouco efeito. Sei, inclusive, que poucos lerão até aqui.
Pensando nisso, tentarei responder à pergunta feita inicialmente, da maneira mais prática, fácil e rápida possível, atendendo à demanda atual, com outra pergunta:
Por que deixar para ser feliz depois?

terça-feira, 21 de julho de 2015

O maldito ciclo do coração


Havia decidido passear pela orla, em uma última tentativa de esquecer mais uma frustração de um relacionamento fracassado. Nunca mais me apaixono, nunca mais, gritava em pensamentos. Não sei se houve um culpado, mas me agarrei na prerrogativa de que aquilo era um ciclo e como tal havia se renovado.
Sentei no primeiro banco que vi, comprei um sorvete e comecei apreciar o mar, as pessoas; a escutar as conversas, a me distrair. Até que a paz que havia levado horas para conseguir foi carregada pelo vento.
Um homem, a quem julguei louco, a princípio, estava agitado e parecia buscar alguém na multidão.
Senti-me incomodado no começo, mas depois, foi só inveja, admito. E, em pouco tempo, aquela inveja deu lugar à inspiração.
Coloquei na cabeça que se ele conseguiu daquela forma, tão facilmente, eu também poderia. Larguei o sorvete e a promessa e saí correndo para o outro lado da rua para fazer o mesmo que ele. Fiz. Seria o fim da minha tristeza, pensei.
Para a primeira que passou, ele se pôs à frente e perguntou: “Você quer um amor verdadeiro para a vida inteira?”. Ela, emocionada, aceitou e os dois saíram de mãos dadas.
 Só depois que descobri que ali eram atores em pleno exercício da profissão. Já era tarde. O ciclo continuou da mesma forma, porém, agora, eu estava sem o sorvete e com uma nova promessa na cabeça.  

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Do amor (moderno)

Les Amants (Gli Amanti)  René Magritte

Depois de muitos anos sem se ver, duas amigas se esbarram na rua, enquanto faziam compras, e aquele cheirinho de boas conversas volta ao ar.
As duas tentam, ali, rapidamente, repor os anos de ausência e distância. Com aquele clima nostálgico, perguntam sobre estudos, trabalhos, férias e viagens. Não se sabe se por aparência, ou coincidência, mas tudo estava as mil maravilhas para ambas.  
Até que o bom e velho assunto surge.
O amor, ou o que se pensa ser ele, está cada vez mais em evidência, principalmente por conta das redes sociais. Amar hoje é fazer uma selfie com o(a) amado(a) e postar na rede social favorita esperando a aprovação de uma centena de desconhecidos. Amar deixou de ser, para muitos, um sentimento e virou uma vitrine, ou seria um status?

Ao ser indagada pela amiga sobre a vida amorosa, responde com a alegria jovial de quem passou no vestibular; “meu namoro está ótimo, bem no início, é certo, mas já temos 400 curtidas e 300 comentários, e o seu?”. Ela ainda esboçou uma resposta, mas preferiu ser atropelada pelo ônibus que passava. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Crônica de um homem que não sabia dançar (ou o balé da libertação de pensamentos perdidos)

Michael Cheval

Antes de mais, sim, homem dança. Antes de tudo, não. Não é um bicho de sete cabeças (na verdade não é sequer um bicho).  
Reza a tradição popular que há duas explicações lógicas para o homem que não sabe dançar (poderia ser a mulher também). Primeira: vergonha de errar, de se expor, de parecer ridículo. Segunda: Engoliu um cabo de vassoura.
Admito que, indo em contradição à famigerada música, o primeiro passo não é fácil (leia-se ter a atitude de começar). Há, ainda hoje, infelizmente, muitas pessoas que pensam que a dança não é uma atividade masculina, pobres almas, e isso reflete muito na opinião alheia (as antigas e velhas conhecidas amizades). E há àquelas que veem essa arte como um bicho de sete cabeças.
Aos primeiros deixo meu silêncio (que já é muito). Aos segundos, digo: não existe bicho nenhum na dança, independente do ritmo escolhido. Como disse um professor certa vez, se você sabe caminhar, saberá dançar, e isso é uma verdade incontestável.
Outra verdade é que o principal sinônimo da palavra dança é autoestima. Não existe restrições quanto à idade, peso ou altura. O casal perfeito não é o mais bonito, tampouco o mais esbelto. Sim o que flutua.
 Há também, algumas verdades ocultas, ou que demoramos a percebê-las. É a verdade dos olhos alheios. Acredite, ninguém está olhando para você ou julgando se os seus movimentos estão certos ou errados, mas não adianta dizer, você só admitirá isso depois de certa prática, quando já estiver elaborando passos complexos e ninguém como plateia.
A dança é, acima de tudo, uma atividade de disciplina, de cavalheirismo, de bons modos, de elegância. É uma metáfora da vida e do relacionamento a dois. Há que saber confiar no outro e onde e como pisar.
E por último, dançar é saber utilizar a primeira ação da harmonia, escutar. Não há dança sem música, isso parece ser bastante claro, mas não se engane, saber executar passos aleatórios não é dança, se esta não vier acompanhada da harmonia da canção. 
Entrei nesse mundo mágico-real há alguns meses, (sim, cuspi o cabo de vassoura e a vergonha de errar) e todo dia após mais uma aula ou baile, uma pergunta vem à mente. Por que diabos não comecei mais cedo? Nunca me conformo.  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Receita para o amor eterno

Mulher chorando - Pablo Picasso


Certa vez, enquanto esperava para fazer sua escova, leu na revista semanal do salão de beleza que para o amor perdurar, teria que fazer o que as mulheres estampadas no folhetim faziam e seguir três passos cruciais.
Receita para o amor da vida inteira, dizia a manchete.
É infalível, relatava uma das famosas da revista.
Ela, já animada com a notícia, abriu um sorriso sem precedentes. Enquanto chegava sua vez de ser atendida, decorou os passos da receita e prometeu colocá-la em prática ao chegar em casa.
Ao ser atendida, porém, mais uma vez buscou uma outra revista como passatempo, desta vez a mensal. E, por coincidência, ou não, esta trazia como destaque uma receita para o amor não morrer.
Esqueça tudo o que você já leu sobre o assunto, dizia a reportagem, nós temos a receita para seu amor durar para sempre.
Ela, mais uma vez se animou e leu ferozmente tudo o que ali estava escrito.
Eufórica, com a receita em mente, saiu do salão já planejando como colocaria tudo em prática. Colocou.
Dois dias depois o namoro havia acabado. Ela inconformada e triste com a separação e ainda mais com a receita falha, ligou para o SAC da revista afim de fazer uma reclamação. Rapidamente, porém, seu semblante mudou completamente. E ela quase deu pulinhos de felicidade.
A revista desta semana trará uma receita facílima de como recuperar o amor perdido, falou a atendente do outro lado da linha.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Bodas de papel

Galatea of the Spheres - Salvador Dalí

Reserva para dois. Bodas de papel – falou ao telefone.
Os dois chegaram pontualmente no horário combinado. Bem arrumados e elegantes. Não havia lugar melhor para comemorar, pensava ela, afinal, tivera sido em um restaurante (um bar, meia boca, na verdade) que haviam se conhecido.
Até que enfim vamos ficar a sós, falou baixinho para o amado.
O garçom, gentilmente, acomodou os dois e entregou os menus. Escolheram sem pressa e aguardaram os pedidos enquanto colocavam a conversa em dia.
Até que enfim vamos ficar a sós, repetiu baixinho, com mais alegria ainda, para o amado.
Ela tentou colocar a conversa em dia e começou falando do trabalho, das amigas, daquele relacionamento e tentou até se cansar, mas nenhuma resposta, ao menos dissílaba, saiu da boca do seu companheiro, que incansavelmente procurava por algo. Nas paredes, nas colunas, no menu.

Foi quando ele encontrou o que tanto buscava que ela convidou o silêncio para sentar em seu lugar e saiu. Wi-fi grátis. Nem sequer deu tempo de ele fazer o check in.
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