quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Desastre somos nós




Uma criança que assistia a tudo pela tevê ficava cada vez mais confusa com toda aquela situação, passava a mão na cabeça, colocava a mão no queixo, olhava pela janela, mas nada disso a fez responder àquela pergunta tão difícil a alguém de tão pouca idade. Teve de recorrer à mãe que passava pela sala naquele momento.

- Mãe, o que é crime?

A mãe do garoto, assustada com aquela pergunta repentina e sem saber explicar corretamente o significado da palavra, recorreu ao dicionário, discretamente,  que estava na estante e respondeu com fluência para o garoto.

-Violação das regras que a sociedade considera indispensáveis à sua existência.

- Então matar é crime, certo, mãe? Mas é claro meu filho, retrucou a mãe imediatamente.

E o filho continuou: então por que dizem na tevê que o rompimento das barragens, que matou pessoas, animais, plantas e a esperança de muitos, por negligência, dinheiro e ganância foi um desastre e não um crime? Será que eles não têm dicionário como a senhora?

A mãe do garoto toda envergonhada pela situação tentou ainda mudar de assunto, mas foi a criança que pôs um ponto final na conversa.

- Ah, entendi mãe, entendi. Foi um desastre sim, mas um desastre humano! 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Você realmente lê?

Arte de the flickerees

Acho que já se tornou fastidioso falar que leitura é importante para a vida, para a mente, para a alma. Todo mundo já sabe disso, não é verdade? Por isso não vou listar aqui os 10 motivos pelos quais você deva ler. Todos já sabemos (pelo menos uns mil motivos). A pergunta que me instiga é – você realmente lê?
Todos já sabemos, também, de cor e salteado, que ler não é somente decifrar códigos, mas dar vidas às palavras. Uma leitura sem interação, contexto, interpretação é um diálogo com uma pedra. E uma pessoa em sã consciência não anda conversando com pedras por aí (com plantas, talvez...).
Sabendo disso, ratifico a pergunta: você realmente lê?
A leitura, veja só que engraçado, enquanto pode ser para alguns apenas uma pedra (no real sentido da palavra), para outros se transforma no melhor meio de transporte, no melhor refúgio, nas maiores asas, no melhor amigo. Tudo é questão de interpretação. Oh!
Sabendo disso, retifico a pergunta: você se despe ao ler?
A leitura, e é isso que poucos sabem (ou não admitem) é um ato de coragem. Sim, ATO DE CORAGEM. O leitor necessita se despir diante das palavras para que estas possam se revelar, dialogar, viver. Ninguém, porém, tira sua armadura tão facilmente, não é?
O leitor precisa se desnudar da preguiça, da fadiga, das desculpas, do óbvio, do preconceito e de tudo o que possa atrapalhar na caminhada das linhas (vale para a vida também) e se vestir somente com o necessário (e isso só você sabe o que é).    

Diante de tudo, finalizo com mais uma pergunta: você está realmente despido da sua armadura cotidiana para a próxima leitura?

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

O problema do mundo não está nos outros

Arte de Tommy Ingberg

“Ah! Como é bom culpar aos demais, não é verdade?”
Tenho certeza de que ninguém nunca ouviu alguém falar isso – EU ADORO CULPAR OS OUTROS!! HA-HA-HA, mas certamente em algum momento o fez (ok, a risada maligna foi um exagero), de uma ou outra maneira. Nós, muitas vezes, culpamos o outro para parecermos melhor, sem perceber que isso não funciona da maneira que pensamos.
– Não fui eu, foi o gato...
Culpar o outro não conserta o que foi feito, muito menos nos deixa menos culpados. Isso também vale para relacionamentos. Acredite, os astros não sabem que você namora, então, não culpe o signo do outro pela sua falha.
­– Ah, mas ele era de escorpião...
Isso me lembra uma história fantasiosa de um homem que todos os dias chegava atrasado no trabalho e usava de uma desculpa para justificar esse atraso – foi culpa do trânsito – da chuva – do pneu que furou – Até que chegando ao final do ano e sem mais a quem ou o que culpar, resolveu sair cedo de casa e em um passe de mágicas, pluft, chegou na hora certa.

Essa mesma mágica funciona em todos os momentos da vida, em todas as atitudes, em todos os lugares. Tenta, qualquer dia desses.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O vazio está em todo lugar

Arte de  Mark Samsonovich


Era uma vez, em lugar muito distante, de uma cidade inventada, quase impossível de existir, um rapaz chamado Vazio, que de tão absurdo, também devia ser fantasia.
Era uma pessoa comum, tinha amigos, cachorro... Porém, parecia ser diferente dos demais. Ele sofria de um mal raro, que por muito tempo pensou-se ser incurável e contagioso.
As pessoas, no começo, olhavam de uma forma diferente para ele, com um olhar de estranhamento e reprovação, o que  o deixava bastante constrangido e envergonhado. O tempo, entretanto, fez com que ele se importasse cada vez menos com esses olhares. Até que um dia tudo pareceu normal.  
Vazio jurava que lixo era semente e tentou por toda uma vida plantar, de onde estivesse, os vegetais mais raros do mundo. Não era difícil flagrá-lo tentando plantar uma latinha de refrigerante da janela do ônibus ou uma embalagem de bombom na saída da festa, na rua.
Vazio, que fez jus ao nome, morreu sentado à calçada esperando uma de suas mudas brotar, crente de que elas não nasciam porque as pessoas não regavam direito.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Maria ia com as outras

Mulher Em Frente ao Espelho - Pablo Picasso

Um dia, Maria, personagem fictícia que vivia na cidade inventada, decidiu que nunca mais iria com as outras, que a partir de agora ela faria somente o que achasse ser o melhor para ela.
Em uma tarde fria do mês de abril, porém, enquanto passeava com seu cachorro, Maria foi interpelada por uma de suas amigas, que perguntou quando ela iria ‘arrumar’ um namorado. A vizinha, que escutava a conversa, foi logo se intrometendo, dizendo que uma moça bonita como ela deveria procurar um namorado logo, e tal e coisa. Outra mulher que passava no local, adivinha? Falou a mesma coisa. Sabe o que Maria fez? Exato.
No dia seguinte, enquanto Maria e seu novo namorado passeavam com o cachorro, foram abordados no mesmo lugar pelas mesmas pessoas, só que agora, elas vendo que Maria havia ‘conseguido’ um namorado, mudaram o discurso, e quase que concomitantemente as mesmas três foram logo perguntando quando o casal iria oficializar a relação, que deveriam se casar logo e tal e coisa. Maria se sentiu tão inferior, por não ser casada ainda, que foi logo tratar do assunto. Marcaram para dali a um mês.
Passada a cerimônia, foram todos para a festa, adivinha quem estava também aproveitando os comes e bebes? E trataram logo de convencer Maria de que um casamento sem filhos não era um casamento e tal e coisa. Não preciso nem falar o que Maria fez, não é?
Após um tempo, enquanto passeava com os dois filhos e os três cachorros, Maria foi abordada por mais uma amiga que foi logo perguntando como ela aguentava estar casada a tanto tempo, que bom mesmo era estar livre, sem ‘correntes’ e tal e coisa.
Maria se separou, voltou a ir com as outras e percebeu que as amigas não haviam pago suas contas.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A banalização do amor

Fisherman - Claudio Souza Pinto


Imagine a seguinte situação: você está andando pela rua e de repente todos os habitantes da cidade abrem suas janelas e de lá arremessam papéis com escritos representando seus sentimentos, pensamentos, opiniões e, claro, muitas folhas em branco. Você ainda tenta ler algumas, na tentativa de conseguir completar a caminhada,  mas a quantidade de papel é tão absurda que você sucumbe em meio ao mar de folhas.
Loucura? Essa sem dúvida seria a rede social que conhecemos hoje, se não tivessem inventado a internet. Já imaginou?
Que bom então que a inventaram, certo? Certo, foi de grandíssimo valor. Muitas coisas ficaram mais rápidas, mais fáceis, mais cômodas, o mundo ficou pequeno. E parece que nossa mente também. Essa rapidez, esse imediatismo que a internet nos condicionou, reflete-se nos nossos sentimentos. Amamos mais rápido.
Que maravilhoso! – gritou alguém lá da calçada.
Ratificando, postamos que amamos mais rápido. O que temos que ter em mente é que muita coisa entra e sai de moda. Roupas, por exemplo. Hoje achamos meio ridículo os trajes que usamos (ou vimos) nos anos de 1970, mas à época eram ‘supimpa’. Não transformemos o amor em uma roupa, o amor não está na moda. A moda acaba com as pessoas, destrói a personalidade, te força a algo. Se seu amor envolve isto, lamento.
O que está em moda hoje, e mais um vez repito, não confundamos, é a tal da # (hashtag), e se ela vier acompanhada de um te amo, então – #teamo – é como se usássemos uma calça boca de sino nos anos da brilhantina, você é igual a todo mundo.
Ser igual nem sempre é bom, certo? – perguntou a menininha que passeava com o cachorro.

Nunca é bom. Se você ama, diga que ama, poste 25 # (hashtags) e tudo o que tem direito. Mas por favor, não siga uma moda que você possa se arrepender no outro dia. Roupas não têm sentimentos. 


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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sabe aquela velha história de que segunda eu começo?

Arte de Silvio Alvarez

Hoje, caminhando pela calçada, peguei-me pensando na maior promessa feita pela humanidade. Naquela que grande parte da população fez em vão ou fará. Segunda eu começo/eu termino.
Quase fui atropelado.
Depois do susto, surgiu-me outro insight, daqueles que só aparecem nessas situações extremas, e se segunda não existir? Será uma frustração a mais comigo?
Muitos utilizam essa famigerada afirmação como indicativa de que uma atitude só poderá ser tomada no início da semana. Como se a semana começasse na segunda.
O que também não percebemos é que quando chegamos ao ponto de utilizar essa afirmação, que em 90% das vezes não é cumprida, é porque já passamos daquela linha imaginária que marcava o que era o limite, independente da meta que seria estabelecida.
E a coisa mais importante, costumamos nos esquecer que a vida, às vezes, não tem a mesma paciência que nós.
– Então é carpe diem, certo? Falou alguém lá na cozinha.
Não exatamente. Quando Horácio escreveu em seu poema “carpe diem, quam minimum credula postero" ele falava mais em colher o dia de hoje e confiar o mínimo possível no amanhã, e isso nos dias atuais soa como algo irresponsável. Os muitos que tomaram os versos de Horácio como teoria, acordaram no outro dia arrependidos, de uma forma ou outra.
O lugar em que o meu pensamento do quase atropelamento me levou foi para algo mais palpável, senão, mais próximo da nossa realidade.  
– Lá vem mais uma receita de felicidade! Cochichou alguém lá na sala.
Não, não é uma receita. Primeiro porque receitas nunca saem iguais, o que é bom para mim não é para outro. Segundo que isso não existe. Se alguém tentar te vender algo parecido com uma receita de felicidade, não compre. Use o dinheiro para ajudar alguém que certamente te fará mais feliz.

Ele me levou para o óbvio, todos sabemos como ser feliz. Cada um sabe do seu. A única coisa que nos impede é o medo. Medo do novo, do escuro. Talvez seja esse o motivo de tudo começar (na teoria) na segunda-feira, temos tempo para desistir.

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