quarta-feira, 15 de julho de 2015

Do amor (moderno)

Les Amants (Gli Amanti)  René Magritte

Depois de muitos anos sem se ver, duas amigas se esbarram na rua, enquanto faziam compras, e aquele cheirinho de boas conversas volta ao ar.
As duas tentam, ali, rapidamente, repor os anos de ausência e distância. Com aquele clima nostálgico, perguntam sobre estudos, trabalhos, férias e viagens. Não se sabe se por aparência, ou coincidência, mas tudo estava as mil maravilhas para ambas.  
Até que o bom e velho assunto surge.
O amor, ou o que se pensa ser ele, está cada vez mais em evidência, principalmente por conta das redes sociais. Amar hoje é fazer uma selfie com o(a) amado(a) e postar na rede social favorita esperando a aprovação de uma centena de desconhecidos. Amar deixou de ser, para muitos, um sentimento e virou uma vitrine, ou seria um status?

Ao ser indagada pela amiga sobre a vida amorosa, responde com a alegria jovial de quem passou no vestibular; “meu namoro está ótimo, bem no início, é certo, mas já temos 400 curtidas e 300 comentários, e o seu?”. Ela ainda esboçou uma resposta, mas preferiu ser atropelada pelo ônibus que passava. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Crônica de um homem que não sabia dançar (ou o balé da libertação de pensamentos perdidos)

Michael Cheval

Antes de mais, sim, homem dança. Antes de tudo, não. Não é um bicho de sete cabeças (na verdade não é sequer um bicho).  
Reza a tradição popular que há duas explicações lógicas para o homem que não sabe dançar (poderia ser a mulher também). Primeira: vergonha de errar, de se expor, de parecer ridículo. Segunda: Engoliu um cabo de vassoura.
Admito que, indo em contradição à famigerada música, o primeiro passo não é fácil (leia-se ter a atitude de começar). Há, ainda hoje, infelizmente, muitas pessoas que pensam que a dança não é uma atividade masculina, pobres almas, e isso reflete muito na opinião alheia (as antigas e velhas conhecidas amizades). E há àquelas que veem essa arte como um bicho de sete cabeças.
Aos primeiros deixo meu silêncio (que já é muito). Aos segundos, digo: não existe bicho nenhum na dança, independente do ritmo escolhido. Como disse um professor certa vez, se você sabe caminhar, saberá dançar, e isso é uma verdade incontestável.
Outra verdade é que o principal sinônimo da palavra dança é autoestima. Não existe restrições quanto à idade, peso ou altura. O casal perfeito não é o mais bonito, tampouco o mais esbelto. Sim o que flutua.
 Há também, algumas verdades ocultas, ou que demoramos a percebê-las. É a verdade dos olhos alheios. Acredite, ninguém está olhando para você ou julgando se os seus movimentos estão certos ou errados, mas não adianta dizer, você só admitirá isso depois de certa prática, quando já estiver elaborando passos complexos e ninguém como plateia.
A dança é, acima de tudo, uma atividade de disciplina, de cavalheirismo, de bons modos, de elegância. É uma metáfora da vida e do relacionamento a dois. Há que saber confiar no outro e onde e como pisar.
E por último, dançar é saber utilizar a primeira ação da harmonia, escutar. Não há dança sem música, isso parece ser bastante claro, mas não se engane, saber executar passos aleatórios não é dança, se esta não vier acompanhada da harmonia da canção. 
Entrei nesse mundo mágico-real há alguns meses, (sim, cuspi o cabo de vassoura e a vergonha de errar) e todo dia após mais uma aula ou baile, uma pergunta vem à mente. Por que diabos não comecei mais cedo? Nunca me conformo.  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Receita para o amor eterno

Mulher chorando - Pablo Picasso


Certa vez, enquanto esperava para fazer sua escova, leu na revista semanal do salão de beleza que para o amor perdurar, teria que fazer o que as mulheres estampadas no folhetim faziam e seguir três passos cruciais.
Receita para o amor da vida inteira, dizia a manchete.
É infalível, relatava uma das famosas da revista.
Ela, já animada com a notícia, abriu um sorriso sem precedentes. Enquanto chegava sua vez de ser atendida, decorou os passos da receita e prometeu colocá-la em prática ao chegar em casa.
Ao ser atendida, porém, mais uma vez buscou uma outra revista como passatempo, desta vez a mensal. E, por coincidência, ou não, esta trazia como destaque uma receita para o amor não morrer.
Esqueça tudo o que você já leu sobre o assunto, dizia a reportagem, nós temos a receita para seu amor durar para sempre.
Ela, mais uma vez se animou e leu ferozmente tudo o que ali estava escrito.
Eufórica, com a receita em mente, saiu do salão já planejando como colocaria tudo em prática. Colocou.
Dois dias depois o namoro havia acabado. Ela inconformada e triste com a separação e ainda mais com a receita falha, ligou para o SAC da revista afim de fazer uma reclamação. Rapidamente, porém, seu semblante mudou completamente. E ela quase deu pulinhos de felicidade.
A revista desta semana trará uma receita facílima de como recuperar o amor perdido, falou a atendente do outro lado da linha.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Bodas de papel

Galatea of the Spheres - Salvador Dalí

Reserva para dois. Bodas de papel – falou ao telefone.
Os dois chegaram pontualmente no horário combinado. Bem arrumados e elegantes. Não havia lugar melhor para comemorar, pensava ela, afinal, tivera sido em um restaurante (um bar, meia boca, na verdade) que haviam se conhecido.
Até que enfim vamos ficar a sós, falou baixinho para o amado.
O garçom, gentilmente, acomodou os dois e entregou os menus. Escolheram sem pressa e aguardaram os pedidos enquanto colocavam a conversa em dia.
Até que enfim vamos ficar a sós, repetiu baixinho, com mais alegria ainda, para o amado.
Ela tentou colocar a conversa em dia e começou falando do trabalho, das amigas, daquele relacionamento e tentou até se cansar, mas nenhuma resposta, ao menos dissílaba, saiu da boca do seu companheiro, que incansavelmente procurava por algo. Nas paredes, nas colunas, no menu.

Foi quando ele encontrou o que tanto buscava que ela convidou o silêncio para sentar em seu lugar e saiu. Wi-fi grátis. Nem sequer deu tempo de ele fazer o check in.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dia dos namorados

Foto mais conhecida do fotógrafo francês Doisneau – expressando o romance em Paris. 


Já era de se esperar, é dia dos namorados, ora bolas! Claro que comprei o seu presente, como iria esquecer essa data tão importante para nós? Disse vendo o sorriso daquela que me olhava com olhos marejados.
A verdade era que não fazia ideia do porquê da troca de presentes nessa data, mas como era tradição (leia-se pressão )... Tinha quase certeza que havia sido obra de marketing, daquelas compre esse cinto e segure o seu amor, e aposto que foi este mesmo comerciante de cintos que soltou o boato que presentear perfume era perigoso, pois se usado até o final o amor acabaria, para derrubar a concorrência. Muitos guardaram o frasco pela metade de perfume e ainda sim viram o “amor” sair pela janela e correr pelo campo.
Ela, emocionada, com a grande caixa de presente à mão abriu-a lentamente, e ao vê-lo não acreditou e começou a chorar. Chorou copiosamente. Aguardei se recompor e retribuir ao regalo de alguma forma. Com algum sorriso ou abraço que fosse.
Havia estudado, tempos antes, que antigamente o amor era reconhecido e agradecido da forma mais simples, porque este já era o principal. E tudo havia começado com Valentim, um bispo da idade média, cuja história não é relevante neste momento, e que depois de muitos anos o dia e mês de sua suposta morte foi relembrado pelos amantes, principalmente com mensagens de amor na soleira das portas.
Preferi mudar a tradição, confesso, era um pouco ultrapassada para os dias atuais. Hoje, o que se coloca na soleira das portas são dívidas, e não é nada romântico.
Nem sorriso, nem abraço. Fechou a porta à minha cara e de dentro da casa sussurrou – ele não me ama.

Fiquei pensando se era por que eu não havia desenhado um coração no cartão. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Amor perfeito

Woman with book - Pablo Picasso 


Ele, machão declarado ao vento, e valentão das esquinas vazias, estufava o peito e falava sem cerimônia àquilo que todos queriam ouvir à mesa do bar. Era garanhão das calçadas, romântico das rosas alheias, ladrão de olhares perdidos.
Tinha sempre, à ponta da língua, o afago mais belo a quem fosse. Todos os dias, também, fazia questão de abrir a porta do escritório às colegas de trabalho, e dizia um elogio distinto a cada.
Todas o tinham como o maior cavalheiro que já se teve notícias por lá.
- Era perfeito, gritou uma colega lá do fundão.
Ele, porém, cultivava em casa um lindo e belo amor ausente com a esposa. Não a afagava, quando do choro. Não a elogiava, quando da dúvida. Não abriu a porta para ela, quando da despedida.
- Era fachada, sussurrou a esposa ao abandoná-lo.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O que é o amor?

O Beijo (Le Baiser, 1969) de Pablo Picasso

Afinal, o que é o amor? Perguntaram-me isso há pouco, na rua, por ocasião de um lançamento de livro e não tive dúvidas quanto à resposta. O amor é nuvem (Bukowski disse cão dos infernos, mas vendo aqueles olhos marejados não quis ser tão realista). Ela olhou para o céu, para mim e ficou um pouco mareada com a resposta. Logo em seguida continuou - Como o amor pode ser nuvem se nem ao menos consigo alcançá-la? Se não sei o seu gosto. O seu cheiro. A sua forma. Se não sei como surge ou desaparece? Você é louco, como o amor pode ser tal coisa? Como pode comparar o sublime dos sentimentos à uma simplória coisa sem expressão?, - falou ainda indignada.

Apenas escutava, com um pouco de angústia, é verdade, imaginava o que poderia vir depois dali.

Não deu outra.

Foi quando ela esbravejou que para uma coisa ser amor de verdade, (nunca vi amor de mentira) tinha que tocá-la, emocioná-la, surpreendê-la, tinha que ser grandiosa a tal ponto de ela não saber o que fazer.

A chuva caiu como pedra sobre nós.


Ela, já correndo, sem saber para onde ir, na tentativa de se abrigar do amor que caía e escorria pelo bueiro, digo, da chuva, ainda perguntou baixinho, meio envergonhada – e a paixão? O relâmpago foi tão rápido e o trovão tão ensurdecedor que não precisei responder. 
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